{"id":3477,"date":"2023-08-23T12:23:09","date_gmt":"2023-08-23T15:23:09","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.ufal.br\/055385505d\/?p=3477"},"modified":"2023-08-23T13:29:28","modified_gmt":"2023-08-23T16:29:28","slug":"tem-muita-coisa-boa-a-ser-dita-mas-as-pessoas-tem-vexame-diz-jessier-quirino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/tem-muita-coisa-boa-a-ser-dita-mas-as-pessoas-tem-vexame-diz-jessier-quirino\/","title":{"rendered":"\u201cTem muita coisa boa a ser dita, mas as pessoas t\u00eam vexame\u201d, diz Jessier Quirino"},"content":{"rendered":"<div style=\"margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;\" class=\"sharethis-inline-share-buttons\" ><\/div>\n<p><em>Em entrevista, poeta matuto reflete sobre a pressa da sociedade atual e a necessidade de manter o bom humor<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Elaine Rodrigues &#8211; jornalista com fotos de Renner Boldrino<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ufal.br\/055385505d\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-2-2-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3478\" style=\"width:425px;height:283px\" width=\"425\" height=\"283\" srcset=\"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-2-2-2.jpg 1200w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-2-2-2-700x467.jpg 700w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-2-2-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-2-2-2-660x440.jpg 660w\" sizes=\"auto, (max-width: 425px) 100vw, 425px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jessier Quirino em entrevista para a jornalista Elaine Rodrigues<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>H\u00e1 mais de 25 anos, Jessier Quirino lan\u00e7ou o seu primeiro livro, <em>Paisagem de Interior<\/em>. A obra deu in\u00edcio a uma maratona de recitais por todo o Brasil, voltados aos mais diversos p\u00fablicos. O arquiteto e poeta matuto at\u00e9 hoje recita o poema que d\u00e1 nome \u00e0 primeira obra, \u00e9 pedido certo nos shows. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o podem faltar muitas outras hist\u00f3rias, causos matutos, que o p\u00fablico at\u00e9 decorou, mesmo assim pede para ouvir mais uma vez do artista.<\/p>\n\n\n\n<p>Nascido em Campina Grande, na Para\u00edba, Jessier se orgulha em levar a alegria sertaneja \u00e0s plateias e utiliza seu olhar de arquiteto na descri\u00e7\u00e3o que contextualiza t\u00e3o bem suas hist\u00f3rias. Seus livros se tornaram objetos de estudos e recursos did\u00e1ticos em institui\u00e7\u00f5es de ensino. Seus contos e sua poesia t\u00eam uma identidade pr\u00f3pria, com um misto de cultura popular, que evoca as hist\u00f3rias de antigamente, as ra\u00edzes nordestinas e a alegria do Sert\u00e3o. \u201cMatuto tem em todo o canto\u201d, garante Jessier.<\/p>\n\n\n\n<p>Na 10\u00aa Bienal Internacional do Livro de Alagoas pela quinta vez, o poeta matuto lotou o Teatro Gustavo Leite. Mas, pouco antes da sua apresenta\u00e7\u00e3o, ele conversou um pouco sobre heran\u00e7a po\u00e9tica, timidez, inspira\u00e7\u00e3o, poesia visual e a pressa da sociedade. Confira a seguir:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Elaine Rodrigues \u2013 As pessoas ficam encantadas com a sua poesia, com seus relatos da alegria sertaneja. Como a arte chegou na sua vida?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Jessier Quirino \u2013 Chegou pelo r\u00e1dio. Campina Grande sempre teve uma efervesc\u00eancia cultural muito grande por conta do com\u00e9rcio, da feira. O r\u00e1dio era aquela coisa provocativa dos tocadores de viola, de Luiz Gonzaga, de Marin\u00eas e eu ouvindo isso tudo, sou ca\u00e7ula de quatro irm\u00e3os mais velhos. Ent\u00e3o, meu irm\u00e3o mais velho estava trazendo Beatles. Papai \u00e9 poeta, um poeta circunspecto, mas eu tenho a heran\u00e7a po\u00e9tica de papai. E o r\u00e1dio me traz essa linguagem interiorana. A riqueza \u00e9 muita e tem muita gra\u00e7a no dizer.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ER \u2013 E o senso de humor?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>JQ \u2013 Eu sempre tive certa liga\u00e7\u00e3o com o humor, eu fiz do humor uma arma de defesa para a minha timidez. Eu sou uma pessoa extremamente reservada e, em sala de aula, com uma brincadeira que chegava de forma sarc\u00e1stica, eu fazia daquela uma pequena marca minha, como uma assinatura \u201cQuiriniana.\u201d E nisso, os mais velhos me defendiam: <em>para a\u00ed que Jessier vai contar uma hist\u00f3ria.<\/em> Ent\u00e3o, eu achava que essa ferramenta era importante para a sobreviv\u00eancia em territ\u00f3rio hostil. Terminou passando a ser minha arma, superou at\u00e9 o arquiteto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ER \u2013 Para contar hist\u00f3rias, \u00e9 preciso ter inspira\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 sua viv\u00eancia com esse processo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>JQ \u2013 A inspira\u00e7\u00e3o vem de tudo. Pego uma revista dentro do consult\u00f3rio m\u00e9dico, aparece um tema cient\u00edfico e eu transformo em uma linguagem matuta, e a linguagem matuta torna-se familiar. Porque o que estava faltando era o exerc\u00edcio de colocar aquelas palavras do matuto na vitrine.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ufal.br\/055385505d\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-3-1-5.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3479\" style=\"width:442px;height:295px\" width=\"442\" height=\"295\" srcset=\"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-3-1-5.jpg 1200w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-3-1-5-700x467.jpg 700w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-3-1-5-768x512.jpg 768w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-3-1-5-660x440.jpg 660w\" sizes=\"auto, (max-width: 442px) 100vw, 442px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">&#8220;A inspira\u00e7\u00e3o vem de tudo&#8221;, dispara Jessier Quirino<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>ER \u2013 Seus livros j\u00e1 foram utilizados como recursos did\u00e1ticos em salas de aula. No caso de <em>Paisagem de Interior<\/em>, a sua descri\u00e7\u00e3o \u00e9 muito detalhada. Nessa hora, o poeta pede ajuda ao arquiteto?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>JQ \u2013 As coisas se confundem. Eu fui muito feliz numa cr\u00edtica de um editor cultural que disse <em>a poesia visual de Jessier Quirino<\/em>. E v\u00e1rias pessoas come\u00e7aram a me definir como poeta visual. Quando eu descrevo a <em>Paisagem de Interior<\/em>, voc\u00ea v\u00ea um cineminha daquela paisagem, mesmo n\u00e3o sendo de interior. Isso se encaixa em v\u00e1rias outras hist\u00f3rias, como Com\u00edcio de Beco Estreito, parafuso de cabo de serrote que \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o da venda, voc\u00ea v\u00ea um filme todinho de um matuto contando a hist\u00f3ria. Ent\u00e3o, essa coisa descritiva \u00e9 muito pr\u00f3pria at\u00e9 mesmo de quem \u00e9 do mato, porque no mato n\u00e3o se diz o endere\u00e7o de ningu\u00e9m. Onde \u00e9 que voc\u00ea mora? Eu moro entre o fiteto de dona Judite e a casa de dona Maria Jos\u00e9. Mas \u00e9 Rua Monsenhor Valfredo, n\u00famero 57, s\u00f3 que ningu\u00e9m fala.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ER \u2013 As suas hist\u00f3rias t\u00eam detalhes, camadas, contextos. Em contraponto, hoje temos redes sociais, fonte de entretenimento r\u00e1pido, v\u00eddeos de at\u00e9 um minuto. Em sua opini\u00e3o, as pessoas est\u00e3o perdendo a habilidade de sentar, conversar e ouvir hist\u00f3rias?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>JQ \u2013 Est\u00e3o. Est\u00e3o perdendo tanto que a gente est\u00e1 usando um recurso que j\u00e1 \u00e9 repassado por minha filha, por meu filho, que eles est\u00e3o na frente nessa parte de tecnologia. Eles dizem: <em>papai, vamos fazer uns recortes<\/em>. Eu disse: o <em>que \u00e9 recorte?<\/em> <em>Recorte \u00e9 colocar um fragmento do que o senhor vai dizer que \u00e9 para pegar o cara mais na frente<\/em>. Ent\u00e3o, eu criei a janelinha de Chic\u00e3o, com um causo de um minuto. E tem outros que duram tr\u00eas minutos ou quatro, eu digo um peda\u00e7o, que \u00e9 para tentar amarrar o fregu\u00eas, l\u00e1 na frente. Ent\u00e3o, isso s\u00e3o artif\u00edcios que a gente vai adquirindo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ER \u2013 E qual a sua opini\u00e3o sobre essa pressa das pessoas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>JQ \u2013 Uma coisa que \u00e9 importante a gente falar, que da\u00ed vem a import\u00e2ncia da Bienal, da sala de aula, da meninada aqui \u00e9 a gente tentar fazer com que essas pessoas tenham calma. Porque tem muita coisa boa a ser dita, mas as pessoas t\u00eam vexame. Agora fa\u00e7o feito o matuto: \u00e9 um vexame, n\u00e3o sei do qu\u00ea. A palavra, a poesia, o verso, o conto precisam dormir. Voc\u00ea escreve, deixe o seu texto dormir um dia, dois dias. Quando voc\u00ea rel\u00ea, voc\u00ea j\u00e1 d\u00e1 uma <em>arrumadazinha<\/em>, d\u00e1 uma <em>descascadazinha<\/em>, apara umas arestas, melhora o choque de uma vogal com outra que na declama\u00e7\u00e3o poderia soar mal. Ent\u00e3o, isso tudo requer um pouquinho de tempo e a <em>Internet<\/em> hoje pede um instant\u00e2neo que o camarada faz na mesma hora e tem que estar vendo, tem que ter tantas curtidas&#8230; Ent\u00e3o, n\u00e3o precisa ter tantas curtidas, precisa ter melhores seguidores. \u00c9 ter fidelidade de seguidores. Um seguidor bom \u00e9 melhor do que 500 ruins.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ER \u2013 A sociedade precisa de mais humor?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>JQ \u2013 O humor \u00e9 a tradu\u00e7\u00e3o da verdade. Com o humor voc\u00ea diz a verdade. A charge j\u00e1 existia l\u00e1 no s\u00e9culo 18, o camarada fazia aquele desenho que \u00e9 uma mensagem pol\u00edtica importante. Ent\u00e3o, a gente vem brincar com as palavras, que fazer poesia \u00e9 brincar. Ao mesmo tempo fazer uma cr\u00edtica social, fazer um chamamento para as pessoas e at\u00e9, como o tema [da Bienal] foi esse, fazer esse chamamento para humanizar a sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja como foi o show de Jessier Quirino <strong><a href=\"https:\/\/sites.ufal.br\/055385505d\/alegria-sertaneja-de-jessier-quirino-contagia-visitantes-da-bienal\/\">aqui<\/a><\/strong>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ufal.br\/055385505d\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-15-4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3480\" style=\"width:546px;height:364px\" width=\"546\" height=\"364\" srcset=\"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-15-4.jpg 1200w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-15-4-700x467.jpg 700w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-15-4-768x512.jpg 768w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-15-4-660x440.jpg 660w\" sizes=\"auto, (max-width: 546px) 100vw, 546px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jessier Quirino lotou o Teatro Gustavo Leite em sua quinta Bienal (Foto: Renner Boldrino)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista, poeta matuto reflete sobre a pressa da sociedade atual e a necessidade de manter o bom humor<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3478,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-3477","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-2-2-2.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3477","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3477"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3477\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3478"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3477"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3477"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3477"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}