{"id":3489,"date":"2023-08-24T10:48:31","date_gmt":"2023-08-24T13:48:31","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.ufal.br\/055385505d\/?p=3489"},"modified":"2023-08-24T10:48:35","modified_gmt":"2023-08-24T13:48:35","slug":"a-educacao-e-o-caminho-para-desconstruir-os-monstros-que-a-propria-educacao-criou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/a-educacao-e-o-caminho-para-desconstruir-os-monstros-que-a-propria-educacao-criou\/","title":{"rendered":"\u201cA educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o caminho para desconstruir os monstros que a pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o criou\u201d"},"content":{"rendered":"<div style=\"margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;\" class=\"sharethis-inline-share-buttons\" ><\/div>\n<p><em>Em entrevista, Kabengele Munanga refor\u00e7ou a import\u00e2ncia da luta antirracista e de uma educa\u00e7\u00e3o que valorize diferen\u00e7as<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>Elaine Rodrigues \u2013 jornalista com fotos de Renner Boldrino<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ufal.br\/055385505d\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-6_1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3490\" style=\"width:438px;height:292px\" width=\"438\" height=\"292\" srcset=\"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-6_1.jpg 1200w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-6_1-700x467.jpg 700w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-6_1-768x512.jpg 768w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-6_1-660x440.jpg 660w\" sizes=\"auto, (max-width: 438px) 100vw, 438px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O professor e antrop\u00f3logo Kabengele Munanga<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p>Em 1975, quando chegou ao Brasil para concluir o doutorado na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), o professor e antrop\u00f3logo Kabengele Munanga encontrou uma sociedade que n\u00e3o falava de racismo. No entanto, o racismo estava em todo lugar, o que fez com que ele come\u00e7asse o enfrentamento, por meio de estudos e pesquisas voltadas para a quest\u00e3o racial. O professor acredita que assumir a exist\u00eancia do problema \u00e9 o primeiro passo para derrubar o mito da democracia racial e lutar contra o preconceito.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, Munanga atuou em defesa da <strong><a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2011-2014\/2012\/lei\/l12711.htm\">Lei de Cotas<\/a><\/strong> para regulamentar o ingresso de estudantes negros em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de ensino e, hoje, mais de dez anos depois de sua implementa\u00e7\u00e3o, acredita que ela contribui na diversidade do quadro de docentes nas universidades. Ele tamb\u00e9m defende as leis que <strong><a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/2003\/l10.639.htm\">determinam o ensino de hist\u00f3ria<\/a><\/strong> e <strong><a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2007-2010\/2008\/lei\/l11645.htm\">cultura afro-brasileira e africana<\/a><\/strong> nas escolas, mas afirma que \u00e9 preciso ter fiscaliza\u00e7\u00e3o para que elas sejam cumpridas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase 50 anos depois da sua chegada ao Brasil, o professor enxerga o avan\u00e7o, mas ressalta que ainda \u00e9 preciso lutar pela igualdade racial e um dos caminhos \u00e9 uma educa\u00e7\u00e3o antirracista. Presente na 10\u00aa Bienal Internacional do Livro de Alagoas, Kabengele Munanga conversou sobre esses e outros temas, conforme a entrevista a seguir:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Elaine Rodrigues &#8211; Qual a sua percep\u00e7\u00e3o sobre o preconceito racial no Brasil?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Kabengele Munanga &#8211;<\/strong> O preconceito existe. Como dizia Albert Einstein, \u00e9 mais f\u00e1cil quebrar um \u00e1tomo do que quebrar um preconceito. O preconceito existe na sociedade, mas a \u00fanica mudan\u00e7a que h\u00e1 \u00e9 uma consci\u00eancia que est\u00e1 crescendo. A popula\u00e7\u00e3o brasileira est\u00e1 se conscientizando que \u00e9 uma sociedade racista que precisa lutar contra esse racismo. Eu estou aqui h\u00e1 48 anos, quando cheguei ao Brasil, em 75, n\u00e3o se falava no racismo. N\u00e3o se falava mesmo. S\u00f3 nos livros, na academia, em Florestan Fernandes, e em tantos outros. N\u00e3o se falava, a imprensa n\u00e3o tocava na quest\u00e3o. Mas hoje, em tudo quanto \u00e9 lugar se fala no racismo. Quer dizer, a consci\u00eancia da sociedade brasileira cresceu, mas o racismo ainda existe, ainda continua a criar v\u00edtimas de uma maneira ou de outra.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ufal.br\/055385505d\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-8-13.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3491\" style=\"width:461px;height:307px\" width=\"461\" height=\"307\" srcset=\"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-8-13.jpg 1200w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-8-13-700x467.jpg 700w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-8-13-768x512.jpg 768w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-8-13-660x440.jpg 660w\" sizes=\"auto, (max-width: 461px) 100vw, 461px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O professor e antrop\u00f3logo Kabengele Munanga durante entrevista<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>ER &#8211; Como o conceito de negritude ajuda no combate ao racismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>KM &#8211; As pessoas t\u00eam que assumir seus corpos, assumir sua identidade, assumir seu corpo negro, os homossexuais se assumirem&#8230; Da\u00ed que vem o conceito de negritude, aceitar seu corpo, amar seu corpo, se olhar no espelho e dizer eu tamb\u00e9m sou bonito, eu tamb\u00e9m sou inteligente, como tamb\u00e9m pode dizer que olha, aquele negro \u00e9 feio, como pode dizer que aquele branco \u00e9 feio. Ent\u00e3o, a negritude \u00e9 o fato de se assumir como negro. N\u00e3o, simplesmente, pela cor da pele, mas com a consci\u00eancia do que os negros sofreram na hist\u00f3ria da humanidade. Sofreram durante a escravid\u00e3o, a coloniza\u00e7\u00e3o, depois da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura continuam a sofrer e a serem v\u00edtimas por causa da cor da pele. Voc\u00ea n\u00e3o luta contra o racismo sem se assumir. Da\u00ed a ideia da negritude que na verdade \u00e9 uma identidade. Assumir essa identidade que come\u00e7a pelo corpo, antes de atingir espiritualmente a intelig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ER &#8211; E a educa\u00e7\u00e3o, qual o papel dela na luta contra o racismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>KM &#8211;<\/strong> A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 importante porque \u00e9 atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o que se cria todos os preconceitos, que se cria indiv\u00edduos racistas, machistas, sexistas, tudo passa pela educa\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 o caminho para desconstruir os monstros que a pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o criou. Mas a gente precisa ter outra educa\u00e7\u00e3o. Uma educa\u00e7\u00e3o antirracista, uma educa\u00e7\u00e3o que valoriza as diferen\u00e7as, que valoriza a diversidade, que constitui a riqueza coletiva da humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ER &#8211; Na sua vis\u00e3o, o ensino da hist\u00f3ria e cultura afro-brasileira e africana tem causado algum impacto para reduzir o preconceito racial no Brasil?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>KM &#8211;<\/strong> O Brasil fez um grande progresso. As leis n\u00ba 10.639\/2003 e n\u00ba 11.645\/2008 s\u00e3o leis que tornam obrigat\u00f3rio o ensino da hist\u00f3ria, da cultura da \u00c1frica, dos negros no Brasil, dos negros da di\u00e1spora, dos povos origin\u00e1rios. Precisava fazer uma lei para fugir do mito da democracia racial e a democracia racial dizia que n\u00e3o somos racistas. Como voc\u00ea vai lutar contra uma coisa que a sociedade n\u00e3o assume? Ent\u00e3o, precisaram fazer as leis: todos os educadores v\u00e3o ser obrigados a ensinar isso e aquilo. E isso passa pela lei, sem a lei n\u00e3o funciona. As leis s\u00e3o importantes, mas as leis t\u00eam que funcionar. N\u00e3o podem ser letras mortas no papel, que n\u00e3o funcionam. Ent\u00e3o, quando se cria uma lei, as leis precisam ser monitoradas, para saber se funcionam ou n\u00e3o funcionam. Se perceber que os munic\u00edpios n\u00e3o est\u00e3o respeitando a [Lei n\u00ba] 10.639, n\u00e3o est\u00e3o ensinando a hist\u00f3ria do negro, precisa saber por que e o que est\u00e1 faltando para que essas leis possam funcionar.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ufal.br\/055385505d\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-4_1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3492\" style=\"width:402px;height:268px\" width=\"402\" height=\"268\" srcset=\"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-4_1.jpg 1200w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-4_1-700x467.jpg 700w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-4_1-768x512.jpg 768w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-4_1-660x440.jpg 660w\" sizes=\"auto, (max-width: 402px) 100vw, 402px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Munanga em entrevista \u00e0 jornalista Elaine Rodrigues<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p><strong>ER &#8211; Qual a sua opini\u00e3o sobre a Lei de Cotas (Lei n\u00ba 12.711\/2012) para o ingresso em institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, al\u00e9m de outras a\u00e7\u00f5es afirmativas de combate ao racismo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>KM &#8211;<\/strong> Para voc\u00ea lutar contra o problema da sociedade, tem tr\u00eas caminhos cl\u00e1ssicos: leis que funcionem, \u00e9 um caminho; segundo caminho \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o; terceiro caminho s\u00e3o pol\u00edticas p\u00fablicas de inclus\u00e3o, sem pol\u00edticas p\u00fablicas de inclus\u00e3o, fica s\u00f3 um discurso antirracista, mas o racismo continua. Tem que ter pol\u00edticas. As cotas s\u00e3o pol\u00edticas de inclus\u00e3o. Hoje j\u00e1 temos o resultado das cotas nas universidades que as adotaram. Hoje j\u00e1 temos at\u00e9 professores negras e negros, em algumas universidades, que passaram pelas cotas. Ent\u00e3o, as cotas n\u00e3o s\u00e3o paliativas, como pensavam algumas pessoas quando esse debate nasceu. As cotas s\u00e3o pol\u00edticas de inclus\u00e3o social dos negros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>ER &#8211; As den\u00fancias contra o racismo aumentaram. A exposi\u00e7\u00e3o colabora para a conscientiza\u00e7\u00e3o da sociedade de que o racismo existe e precisa ser combatido no Brasil?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>KM &#8211;<\/strong> O papel da imprensa \u00e9 importante. Quando mataram George Floyd, nos Estados Unidos, se a imprensa n\u00e3o mostrasse aquelas imagens, a tortura, n\u00e3o iria sensibilizar a sociedade. Se tivesse s\u00f3 um jornalista sem as imagens, o mundo n\u00e3o iria ser sensibilizado. Ent\u00e3o, a imprensa hoje, com a tecnologia, com as imagens, \u00e9 muito importante para conscientizar a sociedade e para mostrar que o discurso sobre o racismo n\u00e3o \u00e9 uma mentira. Hoje tem imagem, n\u00e3o d\u00e1 para negar.<\/p>\n\n\n\n<p>Veja mais sobre a visita de Kabengele Munanga na Bienal Internacional do Livro de Alagoas <strong><a href=\"\/bienaldealagoas.com.br\/em-palestra-kabengele-munanga-afirma-%20que-racismo-mata-duas-vezes\/\">aqui<\/a><\/strong>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista, Kabengele Munanga refor\u00e7ou a import\u00e2ncia da luta antirracista e de uma educa\u00e7\u00e3o que valorize diferen\u00e7as<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3490,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-3489","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/foto_Renner_Boldrino-6_1.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3489","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3489"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3489\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3490"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3489"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3489"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3489"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}