{"id":3578,"date":"2023-08-30T12:28:37","date_gmt":"2023-08-30T15:28:37","guid":{"rendered":"https:\/\/sites.ufal.br\/055385505d\/?p=3578"},"modified":"2023-08-31T13:11:50","modified_gmt":"2023-08-31T16:11:50","slug":"cangaco-o-romance-de-capa-e-espada-do-sertao-nordestino-com-frederico-pernambucano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/cangaco-o-romance-de-capa-e-espada-do-sertao-nordestino-com-frederico-pernambucano\/","title":{"rendered":"Canga\u00e7o, o romance de capa e espada do sert\u00e3o nordestino, saiba mais"},"content":{"rendered":"<div style=\"margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;\" class=\"sharethis-inline-share-buttons\" ><\/div>\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Em entrevista, maior nome da pesquisa acad\u00eamica sobre o canga\u00e7o explica porque o interesse sobre os cangaceiros segue se renovando gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Mariana Lima &#8211; jornalista<\/em><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/sites.ufal.br\/055385505d\/wp-content\/uploads\/53117039576_4a6e7c2177_o-1280x853.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3592\" style=\"width:414px;height:276px\" width=\"414\" height=\"276\" srcset=\"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/53117039576_4a6e7c2177_o-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/53117039576_4a6e7c2177_o-700x467.jpg 700w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/53117039576_4a6e7c2177_o-768x512.jpg 768w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/53117039576_4a6e7c2177_o-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/53117039576_4a6e7c2177_o-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/53117039576_4a6e7c2177_o-660x440.jpg 660w\" sizes=\"auto, (max-width: 414px) 100vw, 414px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Frederico Pernambucano em entrevista \u00e0 jornalista Mariana Lima (Foto: Renner Boldrino)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O canga\u00e7o \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o brasileira de insurg\u00eancia rural, coletiva, armada e metarracial. O cangaceiro \u00e9 o protagonista do \u00e9pico popular brasileiro. \u00c9 com essa explica\u00e7\u00e3o direta e aparentemente simples que o pesquisador, historiador e autor recifense Frederico Pernambucano de Mello sintetiza o movimento que atravessou os rinc\u00f5es do sert\u00e3o nordestino h\u00e1 alguns s\u00e9culos, marcando seu lugar para sempre como um fen\u00f4meno hist\u00f3rico, social e cultural da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Presente em Macei\u00f3 para a 10\u00aa Bienal Internacional do Livro de Alagoas, na qual participou de <a href=\"https:\/\/sites.ufal.br\/055385505d\/historias-sobre-o-cangaco-encantam-o-publico-da-bienal-do-livro\/\">palestras sobre a literatura<\/a> e a est\u00e9tica do canga\u00e7o, Frederico discorreu sobre a constante renova\u00e7\u00e3o do interesse do p\u00fablico nesses personagens, como eles foram imortalizados na cultura popular e at\u00e9 sobre os herdeiros do t\u00edtulo, os bandos hoje conhecidos como Canga\u00e7o Novo, que aterrorizam cidades por todo o pa\u00eds em assaltos a banco e explos\u00e3o de caixas eletr\u00f4nicos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Confira o que Frederico tem a compartilhar \u2013 conte\u00fado que, inclusive, ele foi contratado para explicar aos roteiristas, produtores e atores do Globoplay e, em breve, vai compartilhar com a Disney, pelo <em>streaming<\/em> Star+, para embasar produ\u00e7\u00f5es sobre o canga\u00e7o que devem chegar \u00e0s telas nos pr\u00f3ximos anos. <strong><a href=\"https:\/\/gshow.globo.com\/novelas\/mundo-de-novela\/noticia\/confira-as-primeiras-imagens-de-guerreiros-do-sol.ghtml\">Guerreiros do Sol<\/a><\/strong>, s\u00e9rie de 45 cap\u00edtulos do streaming global com status de novela, carrega o mesmo nome de um de seus livros mais famosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mariana Lima \u2013 O canga\u00e7o sempre despertou aten\u00e7\u00f5es e parece que de tempos em tempos, ele se reinventa. Era fora da lei, um anti\u2013her\u00f3i, o justiceiro, h\u00e1 pouco tempo por causa do Big Brother veio o \u201csangue de Maria Bonita\u201d que virou meme entre os mais jovens. Como o senhor v\u00ea essa mudan\u00e7a constante da vis\u00e3o do p\u00fablico sobre o canga\u00e7o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Frederico Pernambucano de Mello \u2013 Houve uma fase h\u00e1 trinta, quarenta anos, em que o mundo acad\u00eamico estava dominado pela bibliografia marxista e, por essa vis\u00e3o, haveria a seguinte estrutura de luta de classe criada: o coronel sertanejo como opressor e o cangaceiro como oprimido. Ent\u00e3o, isso dava um discurso muito elegante ao cangaceiro e eu como afilhado de fogueira \u2013 n\u00e3o sei se conhece essa institui\u00e7\u00e3o sertaneja \u2013 afilhado de fogueira do senhor Miguel Feitosa Lima, que era o cangaceiro Medalha, que andou com Lampi\u00e3o nos anos 1920, eu ia visitar meu padrinho e contava isso a ele:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 Medalha, o senhor era perseguido pelos coron\u00e9is?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 N\u00e3o, como assim?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 Ent\u00e3o, o coronel perseguindo os senhores, os senhores fugindo dos coron\u00e9is?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 N\u00e3o, Lampi\u00e3o era doido pelos coron\u00e9is! N\u00f3s viv\u00edamos de coronel em coronel.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A\u00ed eu voltei para o Recife, eu j\u00e1 estava engajado na Funda\u00e7\u00e3o Joaquim Nabuco trabalhando com o grande soci\u00f3logo Gilberto Freyre \u2013 que chegou a prefaciar um livro meu, <em>Guerreiros do Sol<\/em> \u2013 e perguntei:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 Doutor Gilberto, como \u00e9? Eu fico com o que a academia preceitua ou com a testemunha preceitua?<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>\u2013 Fique com a sua fonte, despreze tudo o mais.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o o meu livro <em>Guerreiros do Sol<\/em>, cuja primeira edi\u00e7\u00e3o foi de 1985, j\u00e1 desmontava esse falso discurso da luta de classes. O cangaceiro na verdade \u00e9 o seguinte: o canga\u00e7o \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o brasileira de insurg\u00eancia rural, coletiva, armada e metarracial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ML \u2013 Metarracial? Como assim?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FPM \u2013 Lampi\u00e3o era um caboclo, Z\u00e9 Baiano era um negro, Z\u00e9 Sereno era um tipo de negroide chamado Cabo Verde, Candeeiro o que eles chamavam no sert\u00e3o de sarar\u00e1. Corisco era loiro, dos olhos claros e cabelo liso, ou como se dizia no sert\u00e3o antes do politicamente correto, tinha o cabelo bom, um cabelo grande como se fosse de uma mo\u00e7a e tal. Todas essas figuras ascenderam \u00e0s fun\u00e7\u00f5es de chefia do grupo de canga\u00e7o. Ent\u00e3o metarracial. E, no mais, \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o brasileira que remonta aos prim\u00f3rdios da coloniza\u00e7\u00e3o em que o colonizador, chegando ao Brasil, verificou nos nossos \u00edndios e mandou dizer \u00e0 metr\u00f3pole: \u201celes vivem sem lei nem rei e s\u00e3o felizes\u201d. Nesse nervo que vai se entroncar os levantes ind\u00edgenas que perpassam toda nossa hist\u00f3ria, os quilombos negros que tamb\u00e9m perpassam toda a nossa hist\u00f3ria, e as revoltas sociais, a maior das quais foi a Guerra de Canudos, de 1897.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ML \u2013 O senhor falou de insurrei\u00e7\u00e3o rural e no Nordeste tivemos muitas insurrei\u00e7\u00f5es, em especial no per\u00edodo da Reg\u00eancia at\u00e9 a maioridade de D. Pedro II. O canga\u00e7o vem tamb\u00e9m aproveitando um pouco dessa \u201cm\u00e3o de obra\u201d que foi treinada para essas revoltas ou uma coisa n\u00e3o tem liga\u00e7\u00e3o com a outra?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FPM \u2013 N\u00e3o, evidentemente que cabia ao Estado, como poder organizado, combater essas insurg\u00eancias, esse irredentismo do qual o canga\u00e7o fez parte. Ent\u00e3o era natural que os conflitos surgissem e com o mar de sangue que ocorreu&#8230; Lampi\u00e3o foi o maior dos cangaceiros, mas n\u00e3o o \u00fanico, pois o canga\u00e7o data de v\u00e1rios s\u00e9culos, h\u00e1 registros do canga\u00e7o nas primeiras documenta\u00e7\u00f5es feitas j\u00e1 no s\u00e9culo XVIII, no s\u00e9culo XIX. E essas insurg\u00eancias sempre tinham uma justificativa, uma motiva\u00e7\u00e3o, mas, ao Estado, cabia, realmente, reprimir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ML \u2013 A gente passeava pela Bienal e via o tema canga\u00e7o em diversos livros, <em>Maria Bonita e Lampi\u00e3o<\/em>, <\/strong><a href=\"https:\/\/sites.ufal.br\/055385505d\/filho-dos-cangaceiros-corisco-e-dada-lanca-livro-na-bienal-de-alagoas\/\"><strong><em>Corisco e Dad\u00e1<\/em><\/strong><\/a><strong>, livros de pesquisa e tamb\u00e9m fic\u00e7\u00e3o. N\u00f3s n\u00e3o tivemos um per\u00edodo medieval no Brasil, com as hist\u00f3rias de cavaleiros, ent\u00e3o de certa forma, aqui no Nordeste, o cangaceiro entra no espa\u00e7o das lutas de \u201ccapa e espada\u201d? \u00c9 ele o nosso cavaleiro?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FPM \u2013 \u00c9, ali\u00e1s Ariano Suassuna aproveita o cangaceiro em <em>O<\/em> <em>Auto da Compadecida<\/em> porque \u00e9 um auto medieval teatral. Ent\u00e3o, ele aproveita, realmente, a figura do cangaceiro, que \u00e9 o protagonista do \u00e9pico popular brasileiro. \u00c9 isso que, no canga\u00e7o, fascina. O \u00e9pico popular brasileiro e ele est\u00e1 transcendendo da literatura escrita para a televis\u00e3o. Eu acabo de prestar uma consultoria para o Globoplay, para uma novela que j\u00e1 est\u00e1 na metade das grava\u00e7\u00f5es e vai estrear no come\u00e7o de 2024 chamada <em>Guerreiros do Sol<\/em>. Eles me pediram licen\u00e7a para colocar o t\u00edtulo do meu livro porque disseram \u2013 e eu acho que est\u00e3o cert\u00edssimos \u2013 \u201cse eu colocar Guerreiros do Bem, eu estou tomando partido, Guerreiros do Mal, estou tomando partido. Guerreiros do Sol n\u00e3o, cabe ao espectador adjetivar\u201d. E assim foi feito, a s\u00e9rie vem a\u00ed, muito boa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acabo de ser solicitado agora pela Disney+, devo fazer tamb\u00e9m uma consultoria para eles, estamos discutindo os termos do contrato, que \u00e9 para a hist\u00f3ria de <em>Maria Bonita<\/em>. Mas a Globo foi mais sabida porque colocou personagens fict\u00edcios, isso elimina certos riscos de processos com base nos chamados direitos da personalidade. No caso da hist\u00f3ria de <em>Maria Bonita<\/em>, a Disney vai correr certos riscos, mas cabe ao consultor tirar as espoletas que possam causar maiores problemas, mas sem conseguir cauterizar completamente o perigo. Tem descendentes [que podem contestar], a filha dela, Expedita, est\u00e1 viva, com 91 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ML \u2013 Indo um pouco mais \u00e0 quest\u00e3o da Maria Bonita, o feminismo neste s\u00e9culo XXI quer resgatar alguns \u00edcones e se apega muito ao fato de que Maria Bonita largou a vida que tinha e foi com Lampi\u00e3o. Por mais que se apresentem contrapontos de que o feminismo como temos hoje n\u00e3o existia naquela \u00e9poca e que as mulheres no canga\u00e7o faziam as outras seguirem o c\u00f3digo de conduta machista e patriarcal, como o senhor v\u00ea essa tentativa de resgate da imagem que o feminismo faz, as meninas nas redes sociais usando o \u201csangue de Maria Bonita\u201d do BBB, tentando pegar essas mulheres do canga\u00e7o de inspira\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FPM \u2013 Maria Bonita tem algumas particularidades muito interessantes. Quase todas as mulheres \u2013 e eu conheci v\u00e1rias delas, fui amigo de Dad\u00e1, mulher de Corisco, cangaceira, fui amigo de Sila de Z\u00e9 Sereno, fui amigo de Ad\u00edlia de Can\u00e1rio, e v\u00e1rias outras mulheres que eu ainda alcancei vivas e ativas, podendo conversar e explicar como como tinha sido aquela vida. Quase todas elas usavam um artif\u00edcio psicol\u00f3gico que eu estudo no meu livro <em>Guerreiros do Sol<\/em>, que \u00e9 o chamado escudo \u00e9tico. Quer dizer, por exemplo, Cila: ela diz \u201ceu fui raptada por Z\u00e9 Sereno. Eu tinha fam\u00edlia, tinha tudo, fui raptada e fui a pulso para o canga\u00e7o\u201d. Dad\u00e1 tamb\u00e9m dizia que tinha ido a pulso para o canga\u00e7o. Maria Bonita foi uma rara exce\u00e7\u00e3o. Ela, falando com o cinegrafista que acompanhou o bando de Lampi\u00e3o, o Benjamin Abrah\u00e3o, ele diz \u201cconversei com ela, ela me disse que foi acompanhar Lampi\u00e3o de livre e espont\u00e2nea vontade\u201d. Ent\u00e3o, ela tem uma particularidade de ter assumido aquela condi\u00e7\u00e3o de modo consciente e volunt\u00e1rio, de maneira que o \u201csangue de Maria Bonita\u201d realmente apela para essa espontaneidade da ades\u00e3o, da aus\u00eancia de coa\u00e7\u00e3o, da aus\u00eancia de obrigatoriedade alegada pelas outras mulheres do canga\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ML \u2013 N\u00f3s temos hoje em dia a quest\u00e3o do Novo Canga\u00e7o. Enquanto tem gente que usa esses crimes para dizer que os cangaceiros daquele tempo realmente eram ladr\u00f5es, tamb\u00e9m encontramos pessoas que n\u00e3o gostam que se chame os bandidos de hoje de cangaceiros, pois ainda defendem a ideia do anti\u2013her\u00f3i. Como o senhor v\u00ea a quest\u00e3o do nome Novo Canga\u00e7o para esses bandidos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FPM \u2013 No Sert\u00e3o vicejou uma cultura da viol\u00eancia. Essa viol\u00eancia foi inoculada no canga\u00e7o desde os s\u00e9culos iniciais dessa coloniza\u00e7\u00e3o quando foi necess\u00e1rio que os homens dominassem as armas brancas e armas de fogo para debelar as tribos ind\u00edgenas que impediam o assentamento dos currais de gado e a cria\u00e7\u00e3o da sociedade pecu\u00e1ria que caracteriza todo o semi\u00e1rido nordestino. Ent\u00e3o, em raz\u00e3o disso, o valor da coragem, o elogio da coragem esteve sempre presente. No canga\u00e7o n\u00e3o foi diferente. Havia tamb\u00e9m aquela ideia da necessidade, da coragem, da valentia, do adestramento nas armas, n\u00e3o \u00e9? Foi o que aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>ML \u2013 E\u2026?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">FPM \u2013 O velho canga\u00e7o, digamos assim, o canga\u00e7o aut\u00eantico, era um complexo que celebrava a valentia daquele homem. Por qu\u00ea? Porque eles tinham uma vis\u00e3o de que era importante cumprir aquele papel e isso fez com que o cangaceiro tivesse uma aceita\u00e7\u00e3o social t\u00e3o grande e tivesse o seu nome imortalizado \u2013 isso agora \u00e9 um ponto muito importante \u2013 pela poesia de gesta. O que \u00e9 a poesia de gesta? \u00c9 a poesia que vai imortalizar os chefes de canga\u00e7o atrav\u00e9s da cantoria de viola, no caso do verbal, e dos folhetos de cordel no caso da prensa escrita, feita com matrizes de xilogravuras. Ent\u00e3o, por exemplo, o cangaceiro Ant\u00f4nio Silvino, que \u00e9 precursor de Lampi\u00e3o, ele \u00e9 imortalizado na poesia de Leandro Gomes de Barros e de Francisco das Chagas Batista, dois menestr\u00e9is geniais. J\u00e1 o tempo de Lampi\u00e3o \u00e9 caracterizado mais pela pela glosa dos seus feitos pelo poeta Jo\u00e3o Martins de Athayde, que tinha uma impressora no Recife, na Rua do Rangel, e gerava aqueles folhetos que eram embarcados de manh\u00e3 cedo no trem para serem vendidos no sert\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, o Novo Canga\u00e7o n\u00e3o tem esse fasc\u00ednio, n\u00e3o tem essa imortaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tem essa glamouriza\u00e7\u00e3o pela poesia de gesta. \u00c9 apenas banditismo, \u00e9 apenas crime. Futuramente pode at\u00e9 surgir uma poesia, uma coisa, alguma novela que possa at\u00e9 explorar esse novo canga\u00e7o, mas a gente sabe que o Novo Canga\u00e7o \u00e9 mais uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa de grupos atuantes hoje \u00e9 n\u00e3o somente no Nordeste, n\u00e3o somente no Brasil, mas em toda a Am\u00e9rica Latina, n\u00f3s vimos agora esse assassinato no Equador <em>[morte de Fernando Villavicencio, candidato \u00e0 presid\u00eancia do Equador, ap\u00f3s um evento de campanha]<\/em>. Aquilo \u00e9 luta de gangues, droga e tal, no canga\u00e7o n\u00e3o tinha isso.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista, maior nome da pesquisa acad\u00eamica sobre o canga\u00e7o explica porque o interesse sobre os cangaceiros segue se renovando gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":3592,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-3578","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-content\/uploads\/53117039576_4a6e7c2177_o-scaled.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3578","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3578"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3578\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3592"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3578"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3578"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/bienal.ufal.br\/2023\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3578"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}