"Avaliações no Brasil estão presas a modelos tradicionais", diz Maria Helena Castro
Em palestra na Bienal, ela defendeu o Ensino Médio integrado ao técnico e aplicação de provas alinhadas às competências do século 21
Fabiana Barros - jornalista / Jônatas Medeiros - fotógrafo
As avaliações brasileiras estão muito presas a um conteúdo curricular tradicional, a modelos de avaliação mais tradicionais. A afirmação foi feita pela professora da Unicamp, Maria Helena Castro, durante palestra ministrada na 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas. Não foi apenas essa colocação que levou a plateia à reflexão sobre a educação no Brasil. Ela defendeu o Ensino Médio integrado ao técnico e a aplicação de provas que estejam alinhadas às competências do século 21. Sua fala foi um convite à mudança e à reflexão.
Maria Helena foi convidada pela Academia Alagoana de Educação (Acale), presidida pela reitora honorária da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Ana Dayse Dórea, para proferir a palestra Formação de professores: as mudanças nas avaliações das licenciaturas e novos desafios da educação digital e midiática. A abertura de sua palestra contou com a participação do atual reitor da Ufal, Josealdo Tonholo, além da presença de Ana Dayse.
Maria Helena, porém, na condição de professora, reconheceu que mudar é muito difícil. “Quando você tem que refletir, mudar, inovar, é difícil. Então, quando olho as avaliações internacionais e comparo com as brasileiras, vejo que as nossas estão muito tradicionais, precisam ser aperfeiçoadas. O Brasil está mantendo um modelo padrão de avaliação”, afirmou.
De acordo com ela, todas as provas internacionais estão adotando, cada vez mais, questões abertas e provas adaptativas. “Aqui no Brasil, continuamos viciados em testes de múltipla escolha. Então, isso mata as novas competências do século 21, como a criatividade, o pensamento crítico, a capacidade de resolver, em regime de colaboração, problemas; a ideia de avaliar a resiliência do aluno e as competências socioemocionais do aluno”, analisou, completando ao dizer que as avaliações internacionais estão evoluindo para um tipo de avaliação qualiquantitativa.
Apresentação
Em sua palestra, Maria Helena falou sobre o cenário atual e o que está mudando na formação de professores, agora com as inovações que o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) está trazendo para a prova docente. Essa avaliação dos professores foi aplicada há cerca de 15 dias e há vários pontos na área de formação de professores das licenciaturas que estão mudando, a exemplo da nova prova nacional docente, com provas práticas para avaliar o trabalho do professor. “E não apenas teoria, não apenas conteúdo, mas também a experiência prática, a prática profissional, que é fundamental”, ressaltou.
A professora da Unicamp destacou ainda que há um grande debate hoje sobre mudanças que o Inep precisa fazer no Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Conforme Maria Helena, ainda não há uma proposta em andamento. “A iniciativa de avaliação da alfabetização pelo Inep é um ponto também importante e positivo, porque a alfabetização é a etapa mais importante para a criança continuar aprendendo. Se a criança não estiver bem alfabetizada, ela vai ter muita dificuldade”, disse.
Ensino Médio
Como ex-coordenadora da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), Maria Helena afirmou ter havido muita pressão para continuar o Ensino Médio conteudista e tradicional. “O que a gente queria era um Ensino Médio mais interdisciplinar, mais focado na resolução e no desenvolvimento de projetos. Enquanto o vestibular não mudar e o Enem não mudar, fica muito difícil mudar o Ensino Médio”, avaliou.
Ela trouxe ainda um dado preocupante ao mostrar que apenas 21% dos jovens que concluem o Ensino Médio seguem para o ensino superior. “O ideal seria ter o Ensino Médio integrado ao técnico, como já está acontecendo no Ceará, em São Paulo e no Piauí”, ressaltou. No próximo ano, 40% das escolas de Ensino Médio de São Paulo vão oferecer o médio integrado ao técnico. “Acho que essa é uma tendência importante para, primeiro, atrair o jovem e dar uma qualificação profissional independente do curso superior. E, se ele quiser fazer curso superior, vai fazer”, destacou.
Sobre a palestrante
A professora Maria Helena Castro presidiu o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) por oito anos, no governo Fernando Henrique Cardoso. Ela estruturou todo o sistema de avaliação no Brasil, como o Saeb e o Enem. “Trouxemos o Pisa [Programa Internacional de Avaliação de Estudantes] para o Brasil, o primeiro Pisa de 2000, e o provão do ensino superior, que era o Enad”, disse.
Ela também coordenou a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e uma proposta do novo Ensino Médio que acabou sendo alterada.
Sobre a Bienal
A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas é realizada pela Universidade Federal de Alagoas e pelo governo de Alagoas, com correalização da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes) e patrocínio do Senac e do Sebrae Alagoas.
Sob a curadoria do professor Eraldo Ferraz, diretor da Edufal, o maior evento cultural e literário do estado também tem como parceiros a plataforma de eventos Doity, a rede de Hotéis Ponta Verde, o Sesc, a Prefeitura de Maceió por meio da Secretaria Municipal de Educação (Semed) e o Instituto Federal de Alagoas (Ifal), além das secretarias de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult), de Turismo (Setur) e de Comunicação (Secom) de Alagoas.
Acompanhe as novidades da Bienal 2025 por meio do site oficial e também pelas redes sociais com o perfil @bienaldealagoas no Instagram, Threads e Facebook. E para ver mais fotos sobre a cobertura da Bienal, acesse nosso Flickr e confira todos os detalhes do evento.