Ana Maria Gonçalves reafirma o poder transformador da leitura
Escritora interagiu com o público que lotou o Teatro Gustavo Leite - Foto: Jônatas Medeiros

Ana Maria Gonçalves reafirma o poder transformador da leitura

Futura imortal da Academia Brasileira de Letras ressaltou a importância da gratuidade do evento e a coragem pela escolha da temática

Roberto Amorim - jornalista / Jônatas Medeiros - fotógrafo

Faltando menos de uma semana para assumir a Cadeira nº 33 da Academia Brasileira de Letras, a escritora Ana Maria Gonçalves esteve em Maceió neste sábado (1º) para participar da 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas.

Ela chegou às 17h e fez questão de conhecer e conversar com os ialorixás Mãe Neide Oyá D'Oxum e Pai Célio de Iemanjá – homenageados pela Bienal. Bem-humorada e sorridente, ela concedeu entrevista à Rádio Bienal e depois seguiu para o Teatro Gustavo Leite onde conversou com um público de mais de 500 pessoas sobre seu processo de pesquisa e criação para a escrita do livro “Um defeito de cor”.

E ainda autografou 200 exemplares da robusta obra de mais de 900 páginas, lançada em 2006 (editora Record) e que já vendeu mais de 180 mil exemplares.  “Um defeito de cor” foi considerado pelo jornal Folha de S. Paulo como o melhor romance brasileiro do século 21.

Aplaudida durante minutos, Ana Maria iniciou o bate-papo descontraído dizendo da alegria de participar de uma bienal do livro gratuita e promovida por uma instituição pública, tendo como tema o respeito e a celebração da força das raízes africanas para a constituição da identidade do Brasil

“É uma honra estar aqui e ver o povo de axé ocupar espaços até pouco tempo proibidos para pessoas pretas e pobres. Só uma universidade pública tem coragem para fazer o que estou presenciando aqui. Parabéns Alagoas”, disse a escritora. “Adoro esses momentos de ficar olho a olho com os leitores, de trocar experiências e saber como meu livro impacta a vida das pessoas”.

Durante a conversa, mediada pela professora de teatro da Ufal Daniela Beny, fez questão de ressaltar a importância de crescer vendo a mãe lendo. “Ela costurava para ganhar dinheiro e comprar livros com o livreiro que passava uma vez por mês na cidade do interior de Minas Gerais [Ibiá] onde nasci e aprendi a ler e escrever. Até hoje, tudo que escrevo é para ela”.

Reescritas

Sobre o parto da sua obra mais famosa, ela disse que precisou mudar de estado, de São Paulo para Bahia, fazer um profundo mergulho de dois anos de pesquisa sobre a relação Brasil-África, um ano escrevendo e mais dois reescrevendo o livro.

“A primeira versão tinha quase 1.500 páginas. Até ser lançada, foi reescrita 19 vezes. Não existem fórmulas na literatura, existem possibilidades que vão se revelando à medida que vamos escrevendo e reescrevendo diversas vezes. Cada um desenvolve, com tempo e dedicação seus próprios métodos e processos de lidar a imensidão das palavras”, afirmou Ana Maria, que mesmo começando a carreira como blogueira pioneira de literatura na década de 1990, não utiliza redes sociais e nem WhatsApp.

“É preciso ter tempo para ficarmos sozinhos, com amigos e familiares. É preciso tempo para parar, para pensar, para refletir, para produzir. É preciso tempo para enxergar e vivenciar a vida, e não apenas sair por aí repostando o que outras pessoas dizem e acham da vida. É preciso tempo para ter opinião própria”.

Formas de leitura

Antes de terminar a palestra e iniciar a sessão de autógrafos, a escritora afirmou que após lançar uma obra, ela não pertence mais ao autor, mas a cada leitor, que dá sua própria interpretação aos personagens e acontecimentos. “É justamente nesse momento de troca e conversas com os leitores que me emociono ao ouvir relatos de como o ‘Um defeito de cor’ impactou de formas diferentes cada leitor, nas condições emocionais específicas do momento da leitura”.

Ela citou o caso do presidente Lula, que devorou o livro em seis dias enquanto esteve preso em 2018. “Ele me mandou um bilhete muito emocionado dizendo que durante aqueles dias de leitura esqueceu que estava preso e acompanhou a trajetória de luta da personagem em busca de justiça social”.

"Um Defeito de Cor" é um romance histórico que narra a jornada de uma mulher africana, Kehinde, sequestrada e escravizada no Brasil. O livro retrata sua luta pela liberdade, sua vida no Brasil colonial e sua busca por um filho perdido.

O título refere-se a um termo usado na época colonial em que pessoas negras precisavam se desculpar por sua cor para obter privilégios, como ascensão social.

Sobre a Bienal

A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas acontece de 31 de outubro a 9 de novembro, é realizada pela Universidade Federal de Alagoas e pelo governo de Alagoas, com correalização da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes) e patrocínio do Senac e do Sebrae Alagoas.

Sob a curadoria do professor Eraldo Ferraz, diretor da Edufal, o maior evento cultural e literário do estado também tem como parceiros a plataforma de eventos Doity, a rede de Hotéis Ponta Verde, o Sesc, a Prefeitura de Maceió e o Instituto Federal de Alagoas (Ifal), além das secretarias de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult), de Turismo (Setur) e de Comunicação (Secom) de Alagoas.

Acompanhe as novidades da Bienal 2025 por meio do site oficial e também pelas redes sociais com o perfil @‌bienaldealagoas no Instagram, Threads e Facebook.

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