Identidade racial e projetos feitos no sistema prisional em destaque no evento
Ações promovidas pela Esmal receberam o babalorixá Pai Manoel de Xoroquê, integrantes de religião de matriz africana e representantes do Judiciário
Jamerson Soares - jornalista / Renner Boldrino - fotógrafo
Nesta sexta-feira (7), a Escola Superior da Magistratura do Estado de Alagoas (Esmal), do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ-AL), promoveu uma roda de conversa que reuniu o presidente da Comissão de Equidade Racial da Justiça de Alagoas, Vinícius Augusto; o coordenador de direitos humanos do TJ-AL, Pedro Montenegro; o babalorixá Pai Manoel de Xoroquê, coordenador do projeto Makuiu Nzambi; além de integrantes de religiões de matriz africana e representantes da OAB-AL.
O evento aconteceu dentro do estande da Esmal, compondo a programação da 11ª Bienal Internacional do Livro e, durante a atividade, os visitantes participaram de uma dinâmica de perguntas e respostas sobre ressocialização de detentos por meio da arte, da ancestralidade e da inclusão. As perguntas, retiradas de uma espécie de urna, eram respondidas pelo babalorixá, que relacionava os temas à espiritualidade afro-brasileira e ao acolhimento religioso no sistema prisional.
Foram lidas perguntas como: “o senhor acredita que a assistência religiosa de matriz africana é vista com o mesmo respeito em outras expressões religiosas?” e “como a ancestralidade e os orixás são percebidos pelos internos durante esse processo de acolhimento espiritual?”.
Segundo o Pai Manoel, o projeto nasceu em 2024 com o principal objetivo de levar orientações e notícias das casas de santo onde os detentos são integrantes. Ele contou que há pessoas na prisão que são iniciados nas religiões de matriz afro e não recebem visitas das mães e pais de santo.
“Nosso projeto é pioneiro. Acontece dentro dos presídios e leva um pouco do axé e do cuidado espiritual para pessoas privadas de liberdade, especialmente aquelas que seguem religiões de matriz africana e não recebem visitas de sacerdotes. Queremos conscientizar as casas de santo sobre a importância dessa presença”, explicou Pai Manoel de Xoroquê.
Inclusão por meio da arte
No estande da Esmal, o público é recebido por uma escultura em tamanho real de Nelson Mandela — líder sul-africano e símbolo da luta contra o apartheid. A peça foi produzida por detentos do sistema prisional alagoano, como parte de um projeto que promove a ressocialização por meio da arte e da valorização da identidade racial.
Além da escultura, o espaço conta com uma cabine instagramável repleta de imagens de personalidades da literatura e do movimento negro brasileiro, além de textos explicativos sobre diversidade de gênero e respeito à comunidade LGBTQIAPN+. O estande reflete o compromisso do Judiciário alagoano com uma justiça mais inclusiva, humana e próxima da sociedade.
O professor e ator Geraldo Bernardo (B Black), que atua nos presídios através da Secretaria de Ressocialização e Inclusão Social (Seris), o objetivo é “fazer com que os reeducandos compreendam sua ancestralidade e sua identidade racial”. O projeto existe há dois anos e sempre utiliza a arte e a cultura para a transformação social.
“Mais de 68% da população encarcerada no Brasil é preta ou parda. Muitos não sabem se reconhecer racialmente. O Sancórfago parte dessa reflexão, de olhar para trás e reconhecer os ancestrais, como o pássaro símbolo do projeto — que olha para o passado para compreender o presente”, afirmou o professor.
A presença do Judiciário alagoano
Para o juiz Vinícius Augusto, a presença da Esmal na Bienal representa uma nova forma de atuação do Poder Judiciário. “É importante mostrar que o Judiciário vai além dos processos e das questões criminais. Ele também pode contribuir com a sociedade através de ações educativas, culturais e inclusivas”, destacou.
Entre os materiais expostos, está a Cartilha de Letramento Racial, elaborada pela Comissão de Equidade Racial. Conforme informações da diretora da Biblioteca da Esmal, Mirian Alves, a publicação reúne indicações de livros e materiais gratuitos sobre a temática racial, disponíveis na biblioteca da instituição e em plataformas digitais.
Para ela, a participação da Esmal na Bienal tem como propósito reforçar o diálogo entre o Poder Judiciário e a população. “Já é a terceira vez que participamos da Bienal. Queremos mostrar uma justiça mais inclusiva e mais humana, que dialoga com a sociedade. Este ano, trouxemos a temática racial em sintonia com o tema central do evento”, explicou.
Ela acrescentou que a escultura de Nelson Mandela e outras obras produzidas por reeducandos — como bustos de Conceição Evaristo e Djamila Ribeiro, que estiveram no estande durante a semana — são símbolos do potencial transformador da arte. “Essas obras nasceram dentro do sistema prisional e hoje ocupam um espaço de destaque na Bienal. É um gesto de reconhecimento e esperança”, concluiu.
Sobre a Bienal
A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas é realizada pela Universidade Federal de Alagoas e pelo governo de Alagoas, com correalização da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes) e patrocínio do Senac e do Sebrae Alagoas.
Sob a curadoria do professor Eraldo Ferraz, diretor da Edufal, o maior evento cultural e literário do estado também tem como parceiros a plataforma de eventos Doity, a rede de Hotéis Ponta Verde, o Sesc, a Prefeitura de Maceió por meio da Secretaria Municipal de Educação (Semed) e o Instituto Federal de Alagoas (Ifal), além das secretarias de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult), de Turismo (Setur) e de Comunicação (Secom) de Alagoas.
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