Mesa reforça a relação entre a saúde e práticas ancestrais de cura
Momento com a participação de Iyá Carla Vieira, a Mãe Carla; Taynã Querino, e Luana Pires, representando a Mãe Neide
Jamerson Soares – jornalista / Adriano Arantos - fotógrafo
A tarde desta sexta-feira (7) fpi marcada pela mesa-redonda O cuidado de Oxum: saúde afrocentrada, identidade negra e práticas ancestrais de Cura, com Iyá Carla Vieira, a Mãe Carla; Taynã Querino, e Luana Pires, representando a Mãe Neide. A mediação ficou por conta de Lannay Pereira. O encontro foi registrado na Sala Mangaba, durante a programação da 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas.
Mãe Carla iniciou a fala destacando a sua trajetória na universidade, na área de enfermagem e a relação entre os saberes ancestrais, a saúde ocidental e a seu intenso envolvimento com Oxum, orixá das águas e da fertilidade. Durante a apresentação, ela relatou episódio que marcou seu percurso na religião de matriz afro: há três anos, uma de suas filhas teria ido ao médico e descoberto que não poderia ter mais filhos. Um dia, ela foi até a Mãe Carla para jogar búzios e saber o que tem impossibilitado essa dádiva materna. A mensagem apareceu como um susto: a mulher só teria algum filho se aceitasse sua mãe biológica.
“O médico disse que ela não seria mãe. Foi parar em outros médicos e estados para tentar inseminação artificial, mas a devolutiva era a mesma: não podia gerar. Depois que ela aceitou a mãe, ela conseguiu ter o filho. Foi realmente um milagre”, comentou Mãe Carla, que também agradeceu pelo convite.
“Foi uma satisfação imensa participar do encontro, porque nós mulheres pretas de matriz africana estamos num espaço desse, entrando pela porta da frente, é um avanço para nós passar um pouco da nossa vivência, estar num mundo acadêmico e mostrando aqui na Bienal a nossa força da mulher preta dentro da matriz africana”, disse ela.
Já Taynã Querino falou um pouco sobre o autocuidado e a alusão aos cuidados maternos de Oxum, evidenciando a simbologia da água como um elemento que lava e cura feridas. “A gente associa o autocuidado como algo errado. Dizer não ao outro para poder cuidar de si é dizer sim para si, e também é a energia de Oxum”, contou.
Em seguida, Luana Pires frisou os impactos da saúde dos terreiros e das plantas medicinais na universidade e na literatura acadêmica. Ela, que é da área da Farmácia, atualmente estuda a potencialidade na planta jurema e o que ela pode trazer de benefícios referentes à saúde mental. “A nossa ciência não é valorizada e quando eu vou para os diálogos na universidade e percebo que tem pessoas que querem desvalorizar a pesquisa, dói. Mas não estou só, estou lá para compartilhar saberes”, afirmou.
Discussão
Após as falas, houve um bloco de perguntas e discussões sobre o que foi discutido no encontro, com a participação ativa do público. Em um determinado momento, um homem contou ao público que é soropositivo e falou que a iniciação na religião afro de alguma forma curou a sua cabeça e seus pensamentos em relação ao vírus. Ele também perguntou às convidadas sobre a ideia de cura entre a academia e os saberes ancestrais.
Entre a plateia também estava Emmely Freitas (25), estudante de Medicina. Questionada sobre como se sentiu ao prestigiar o encontro, ela contou que se identificou com o que as lideranças religiosas relataram sobre a medicina ancestral e a prática de cura através do uso de plantas medicinais.
“O que me chamou atenção foi a parte das plantas, que é o viés que eu pretendo estudar, então foi muito rico para mim entender e participar. O que me tocou também realmente foi conhecer um pouco mais de uma cultura. Foi uma alegria conhecer um pouco mais dessa cultura tão rica, que traz tanto benefício, sobre saúde mental, sobre homeostase, isso é muito importante. Isso deveria ser mais propagado”, refletiu.
Sobre a Bienal
A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas é realizada pela Universidade Federal de Alagoas e pelo governo de Alagoas, com correalização da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes) e patrocínio do Senac e do Sebrae Alagoas.
Sob a curadoria do professor Eraldo Ferraz, diretor da Edufal, o maior evento cultural e literário do estado também tem como parceiros a plataforma de eventos Doity, a rede de Hotéis Ponta Verde, o Sesc, a Prefeitura de Maceió por meio da Secretaria Municipal de Educação (Semed) e o Instituto Federal de Alagoas (Ifal), além das secretarias de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult), de Turismo (Setur) e de Comunicação (Secom) de Alagoas.
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Ao final do evento, a Ialorixá Olodum Serafim foi convidada à frente do público para entoar um cântico de Oxum e dançar sob o ritmo de palmas. O público também participou da celebração e ajudou a ecoar o poder da ancestralidade nos corredores da Bienal.