Miriam Leitão reforça o poder do jornalismo e da literatura na sociedade
Mirian Leitão durante entrevista à Rádio Bienal - Foto: Jônatas Medeiros

Miriam Leitão reforça o poder do jornalismo e da literatura na sociedade

Jornalista defende que livro é peça de resistência, e que profissão de jornalista nunca foi tão importante quanto nos dias atuais

Roberto Amorim - jornalista / Jônatas Medeiros - fotógrafo

Há 53 anos na lida do jornalismo econômico, poucos telespectadores conhecem o lado escritora de Miriam Leitão. Ela é uma das vozes mais potentes da televisão brasileira quando o assunto é analisar a conturbada relação entre política e economia em um país assombrado pela inflação como o Brasil.

Mas a Miriam escritora tem 16 livros publicados, vários premiados e ocupa a cadeira de número 7 da Academia Brasileira de Letras (ABL), vaga deixada pelo cineasta Cacá Diegues.

Antes de conversar com um auditório lotado de mais de 300 pessoas, na noite deste sábado (8) na 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, ela concedeu entrevista à Rádio Bienal. Confira os principais trechos.

Vamos começar com uma provocação. Quando o Brasil vai virar a Venezuela que prometeram?

Olha, quase virou. No governo passado, o projeto era perseguir a imprensa e usar as forças armadas para continuar no poder. Foi exatamente assim que a Venezuela virou a Venezuela de hoje. Eu fui lá em 2003 e fiz uma série de reportagens para o Bom Dia Brasil, e era exatamente esse projeto que se construía: chegar ao governo com um projeto autoritário. Eles conseguiram lá, aqui não conseguiram.

A questão econômica foi central no debate brasileiro. Antes a inflação era a vilã, agora é o déficit das contas públicas?

O Brasil tem um déficit, sim, tem uma dívida alta. O déficit é menor do que já foi nos governos anteriores [de Bolsonaro e Michel Temer]. É importante que a dívida fique sob controle, mas é importante também que a gente não entre na histeria de alguns analistas. Quando o governo falou de dar a isenção do imposto de renda até cinco mil reais, o mundo veio abaixo. O dólar subiu, a bolsa caiu, os economistas disseram que seria o descontrole das coisas. O governo foi explicando qual era o seu projeto e tudo foi se acalmando e acabou sendo aprovado por unanimidade no Congresso Nacional. É preciso ouvir bem e atentamente antes de sair por aí dando opiniões sem bases concretas.

Como enxerga o papel do jornalismo atualmente no Brasil?

Acho que nós somos mais necessários hoje do que nunca porque nós trabalhamos com informação verificada. A nossa informação é checada, verificada. A gente vai às partes e vai em busca dos dados, dos números. Nesse ruído de inúmeras mentiras sendo produzidas e colocadas em circulação, o trabalho de jornalistas sérios e éticos é ainda mais necessário para, exatamente, separar a mentira dos fatos. Hoje a gente não tem a censura, mas existe um forte e bem articulado grupo que ataca os jornalistas brutalmente.

Como lida com os ataques?

Os jornalistas também se transformam em alvo para aqueles que atentam contra a democracia. Eu sou alvo e é muito doloroso. Ao mesmo tempo, a gente não pode desistir porque nos atacam. É o mesmo objetivo que o censor tinha da época da ditadura militar. O objetivo é fazer com que cada jornalista sério desista do seu trabalho. E isso a gente não pode fazer. No dia em que os jornalistas desistirem porque estão sendo atacados eles venceram.

Qual o poder da literatura nos tempos assim?

O livro é, principalmente, uma peça de resistência. Não à toa, o primeiro ato das tiranias é proibir e queimar os livros. O livro nos leva a reflexão, a pensar. Eu fui do jornalismo para o livro, do livro para o jornalismo. Eu não abandono nenhum dos dois campos.

Por isso decidiu passear por tantos gêneros?

Meu livro mais famoso e premiado é Saga Brasileira, de 2011, sobre inflação e déficit público. Ou seja, sobre a matéria-prima do meu trabalho diário. É sobre a luta dos brasileiros, do país contra a hiperinflação. Mas, ao mesmo tempo, vou por outros caminhos literários. Eu tenho oito livros infantis. Tempos Extremos é um romance. História do Futuro é não ficção, é um livro sobre as tendências do Brasil, as possibilidades do Brasil nesse século. E ainda tem o Amazônia na Encruzilhada, também de não ficção. Não planejo o que quero escrever nem qual gênero. As histórias surgem e começo o trabalho. Já escrevi dois livros de uma vez só, de gêneros e temáticas completamente diferentes.

Como foi tratar da escravidão e ditadura militar em Tempos Extremos?

É um romance em que dois passados se cruzam. Pelo caminho da ficção, foi possível esse diálogo. Não quero comparar as dores. Claro que a dor da escravidão foi muito maior, prolongada e até difícil de descrever. Eu coloco uma jovem historiadora que consegue atravessar o tempo e colocar essas duas dores do Brasil em diálogo. E foi curioso, porque escrevi esse livro em 2012 e publiquei em 2014. Ele foi republicado agora pela editora Intrínseca porque agora ele é mais atual. Na ficção, inventei uma família que não conseguia dialogar por causa de política, que não conseguia fazer uma comemoração por causa de política, um irmão não conseguia falar com o outro. Eu criei um mundo que só ficou visível no Brasil a partir de 2018 com a polarização que se instalou no país até hoje.

Ler é ainda uma importante forma de resistência?

Fui uma criança leitora e o que aconselho para as pessoas é isso: levar livros para seus filhos, ler com eles, deixá-los se embeberem naquele universo da literatura infantil, porque isso é um grande caminho. Depois que a leitura fizer parte do cotidiano das crianças, serão jovens e adultos críticos com condições de ler a complexidade de uma sociedade não só complexa como a brasileira, mas o intricado sistema globalizado. Sem a leitura, formamos uma multidão de pessoas que acredita e reproduz narrativas simplistas e enganosas.

Sobre a Bienal

A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas é realizada pela Universidade Federal de Alagoas e pelo governo de Alagoas, com correalização da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes) e patrocínio do Senac e do Sebrae Alagoas.

Sob a curadoria do professor Eraldo Ferraz, diretor da Edufal, o maior evento cultural e literário do estado também tem como parceiros a plataforma de eventos Doity, a rede de Hotéis Ponta Verde, o Sesc, a Prefeitura de Maceió por meio da Secretaria Municipal de Educação (Semed) e o Instituto Federal de Alagoas (Ifal), além das secretarias de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult), de Turismo (Setur) e de Comunicação (Secom) de Alagoas.

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