Nilma Lino é aplaudida de pé em palestra sobre educação antirracista
Escritora e pedagoga foi a primeira mulher negra do Brasil a comandar uma universidade pública federal
Roberto Amorim - jornalista / Jônatas Medeiros - fotógrafo
Aplaudida de pé ao entrar no palco do Teatro Gustavo Leite para falar sobre educação antirracista, a pedagoga, pesquisadora e escritora Nilma Lino Gomes usava no cabelo uma expressiva flor que ganhou nas andanças pela 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas antes da palestra oficial, que aconteceu na noite desta segunda-feira (3).
“Estou duplamente feliz esta noite. Primeiro por voltar a Maceió depois de mais 20 anos, depois por participar de uma Bienal que quebra o paradigma do eurocentrismo e coloca os saberes africanos como essência de um espaço que, historicamente, sempre foi privilégio de uma classe intelectual branca e economicamente dominante”, disse a professora do curso de Pedagogia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Ela tem a trajetória marcada pelo pioneirismo de ser a primeira mulher negra do Brasil a comandar uma universidade pública federal: em 2013, é nomeada reitora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), localizada na cidade de Redenção, Ceará.
Suas publicações incluem desde livros e artigos resultados de pesquisas de campo e voltados para o público universitário, até narrativas de ficção destinadas para crianças e jovens.
Na conversa mediada pelas professoras da Ufal, Ana Palmeira e Rosa Correia, Nilma Lino ressaltou o ordenamento jurídico, em especial a Constituição de 1998, como base legal para exigir a aplicação da educação antirracista em todos os níveis da educação, desde o ensino básico até o superior.
“Principalmente num momento tão peculiar que estamos vivendo, com tantos ataques à democracia e aos princípios da dignidade da pessoa humana. É uma luta histórica, que ganhou aparato constitucional com o processo de redemocratização do país, em 1986, com o fim da Ditadura Militar”, completou.
Respeito e inclusão
A educação antirracista é uma abordagem pedagógica que visa combater o racismo na escola e na sociedade, desconstruindo preconceitos, valorizando a história e a cultura afro-brasileira e africana.
Ela se baseia em políticas afirmativas, promove a equidade racial e exige mudanças no currículo, nas práticas pedagógicas, na formação de professores e no ambiente escolar, tornando-o um espaço de respeito e inclusão.
De acordo com ela, existem muita falta de informação sobre o que é uma educação antirracista, dando munição aos grupos contrários para construir e divulgar nas redes sociais narrativas simplistas e preconceituosas.
“É comum ouvir que é algo ideológico, de gente negra e movimentos sociais que querem tumultuar a escola. Daí surgem as fakes news com o seu poder destruidor. É preciso combater essas narrativas mostrando que os argumentos de defesa da educação antirracista estão postos em diversos artigos da própria constituição brasileira e outras legislações como a Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional”.
Chão democrático
Em tom didático e voz firme, a estudiosa de temas étnicos-raciais também esclareceu que lutar por educação antirracista é lutar também pelo fim das desigualdades sociais e éticas nas relações humanas, que, segundo ela, inclui a não-violência, a autonomia, a emancipação escolar e a solidariedade.
“Apesar de frágil, temos um chão democrático que nos permite, inclusive, estarmos aqui discutindo essas questões; que permite que pretas e pretos possam não só acessar essa Bienal, mas serem o foco dela. Em um regime autoritário isso jamais iria acontecer. É esse chão democrático que nos dá sustentação para lutar e exigir por uma educação democrática e antirracista.
Nilma Lino diz que, apesar dos avanços como a lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira em todas as escolas, ainda há muito a ser feito.
“Ainda é muito forte o projeto de manutenção de poder que sustenta os currículos escolares eurocêntricos, que exclui as diferenças, que não permite que existam livros sobre a África nas bibliotecas e que excluem das práticas pedagógicas a literatura, música, culinária e outras formas artísticas afro-brasileiras. Só através das tensões sociais provocadas pelos movimentos sociais é possível continuar a avançar para uma verdadeira educação democrática e antirracista.
Sobre a Bienal
A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas é realizada pela Universidade Federal de Alagoas e pelo governo de Alagoas, com correalização da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes) e patrocínio do Senac e do Sebrae Alagoas.
Sob a curadoria do professor Eraldo Ferraz, diretor da Edufal, o maior evento cultural e literário do estado também tem como parceiros a plataforma de eventos Doity, a rede de Hotéis Ponta Verde, o Sesc, a Prefeitura de Maceió por meio da Secretaria Municipal de Educação (Semed) e o Instituto Federal de Alagoas (Ifal), além das secretarias de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult), de Turismo (Setur) e de Comunicação (Secom) de Alagoas.
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