Oficina de crochê promove conexão com ancestralidade africana
Atividade Flores Agudás une poesia, arte, memórias, bate-papo e afetividades durante o evento
Paulo Canuto com Rodrigo Rocha - Jornalistas / Jônatas Medeiros e Adriano Arantos - fotógrafos
A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas já protagonizou diversos momentos marcantes, sejam eles de grande concentração de pessoas (como nos lançamentos de livros, cortejos e apresentações musicais), até atividades mais intimistas. A oficina Flores Agudás: Jardins de Memórias, ocorrida na Sala Pitanga do Centro de Convenções. Mais que uma oficina, a atividade buscou explorar a conexão Brasil-África através do crochê em fio de malha, como conta a facilitadora Juliana Bandeira.
“A oficina é uma oficina de crochê e uma roda de diálogo mesmo. Uma conversa enquanto a gente crocheta, conversas sobre nossas memórias ancestrais porque enquanto a gente está aqui, tecendo os fios, a gente está unindo a nossa memória ancestral africana e afro-brasileira. Tudo isso no sentido de entender a memória e a cultura, não apenas a trazida de África para cá, mas a cultura afro-brasileira que voltou para o continente africano com os Agudás”, contou Juliana.
Os Agudás foram escravizados brasileiros libertos que viveram entre os séculos 18 e 19. Eles voltaram para o continente africano, para o antigo Reino Daomé (onde atualmente fica o Benim), e lá foram nomeados como Agudás, que são os brasileiros do Benim. A relação África-Brasil / Brasil-África funciona como um fio que interliga o intercâmbio cultural entre as duas terras e que se relaciona diretamente com a oficina.
Grande parte dos participantes não tinham nenhuma ligação com o crochê, o que não era requisito para participação, e isso não foi problema, pois as facilitadoras de uma forma dinâmica e didática, foram passando ensinamentos básicos para a produção de uma Flor de Agudá.
Tudo isso para que no processo de crochetagem as memórias e lembranças afetivas fossem evocadas para uma conexão consigo mesmo, guiada pelas facilitadoras que através de uma conversa olho no olho, iam buscando essas memórias: “Hoje a oficina foi voltada para um público maior, mas assim nós acreditamos que ela se reverber, porque eles podem chegar e fazer com um filho menor em casa, com um sobrinho, um primo, talvez um professor que vá aplicar isso em sala de aula de alguma forma, então é uma semente plantada também”, contou Amanda Mirella, outra facilitadora da oficina.
Para a artista visual Amily Carneiro, participar da oficina trouxe mais do que memórias afetivas: “Essa oficina trouxe a minha raiz, porque aprendi crochê com minha mãe, e acabei passando também para minha prima, então é algo de família. Minhas ‘negronas’ ali, sempre comigo, e foi muito bom, muito gratificante estar aqui voltando ao meu eu realmente. Sem contar que as meninas são maravilhosas, então foi tudo muito incrível”, declarou.
Inicialmente a capacidade máxima de participantes seria de 15 pessoas. A princípio, parecia que esse número não seria superado. No entanto, houve a chegada de mais um participante e essa 16ª pessoa foi um elemento especial para a atividade, com uma história que conversou demais com a ideia da oficina.
Emoção à flor da pele
A advogada Nana Peclat veio sem muitas pretensões para esse penúltimo dia de Bienal, mas quando leu sobre a atividade na programação, soube que era o lugar onde deveria estar.
“Logo que eu cheguei na aqui para Bienal, eu acessei a programação e vi essa oficina. E eu li assim: ‘Flores Agudás: jardins da memória’. E eu pensei: eu quero fazer essa oficina, porque a minha avó, ela sempre disse o seguinte: ‘Me deem flores enquanto eu estiver aqui, porque eu posso ver. Depois que eu não estiver mais, eu não vou ver mais essas flores’. Aí eu vim aqui para tentar fazer uma flor para guardar para sempre no meu coração”, contou emocionada.
Ela continua dizendo que ficou muito feliz com sua produção, mesmo não sendo a tão esperada flor: “Eu tô feliz, mesmo que eu não tenha conseguido fazer a flor, mas eu consegui acessar o que eu precisava nessa oficina maravilhosa com essas meninas lindas. E agradeço por essa oportunidade que a Bienal traz, né, para a gente, de poder acessar conhecimentos que não são visíveis, e esse, para mim, foi o momento mais importante deste evento”, declarou.
Tanto Juliana quanto Amanda contaram que participar de um evento como a Bienal do Livro de Alagoas é de suma importância para o trabalho que elas desenvolvem.
“A gente entende que nesse contexto que a gente vive, a gente precisa também dessa visibilidade, embora o trabalho que desenvolvemos com as crianças tenha um peso maior. O que aconteceu conosco quando tivemos uma contação de história com crianças de União dos Palmares foi incrível, pois ali é uma semente que estamos plantando. Aqui também falamos sobre os povos que retornaram, falamos sobre valorização da memória ancestral e de que às vezes você sente apreço por certos tipos de coisas que você não consegue entender, e essa é nossa memória ancestral falando”, destacaram.
Juliana e Amanda fazem parte da Akoben Educação, que tem como norte de trabalho a educação crítica e emancipatória com oficinas, palestras, formação docente, arte, poesia, música e muito mais. Segundo elas, é através da educação que haverá a salvação: “Então, Akoben veio como um chamado na nossa vida e a gente quer que ecoe como um chamado para as outras pessoas também. A gente acha que a educação é a única forma, a única saída para o nosso povo. Então, é assim que a gente trabalha”, concluiram.
Sobre a Bienal
A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas é realizada pela Universidade Federal de Alagoas e pelo governo de Alagoas, com correalização da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes) e patrocínio do Senac e do Sebrae Alagoas.
Sob a curadoria do professor Eraldo Ferraz, diretor da Edufal, o maior evento cultural e literário do estado também tem como parceiros a plataforma de eventos Doity, a rede de Hotéis Ponta Verde, o Sesc, a Prefeitura de Maceió por meio da Secretaria Municipal de Educação (Semed) e o Instituto Federal de Alagoas (Ifal), além das secretarias de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult), de Turismo (Setur) e de Comunicação (Secom) de Alagoas.
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