Patronos da Bienal comandarão cortejo de encerramento da edição
Mãe Miriam, Mãe Neide e Pai Célio estarão à frente do evento; cerimônia está prevista para às 20h
Roberto Amorim - jornalista / Jônatas Medeiros - fotógrafo
Na noite de 31 de outubro, o orixá Exu autorizou a abertura dos trabalhos da 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, que este ano celebrou a ligação entre Brasil e África através dos seus e ritos e raízes. Exu é uma divindade fundamental nas religiões de matriz africana. É o orixá da comunicação, do movimento e da abertura de caminhos, sendo cultuado antes de todas as outras divindades para garantir a ordem nos rituais e a comunicação com o mundo espiritual.
E neste domingo (9), último dia do maior evento literário e cultural do estado, com previsão de visitação de mais meio milhão de pessoas em dez dias de intensa programação, as bênçãos de encerramento e gratidão pelo sucesso serão dadas pelos orixás. A celebração começa às 20h em um grande cortejo pelos corredores do Centro Cultural e de Exposições Ruth Cardoso, no bairro de Jaraguá, em Maceió.
Assim como na abertura, o ritual será comandado pelas ialorixás Mãe Mirian de Nanã e Mãe Neide Oyá D'Oxum, além do babalorixá Pai Célio de Iemanjá. É a primeira vez que membros de religiões de matriz africana ocupam o espaço oficial da literatura, lugar tradicionalmente reservado à intelectualidade branca e economicamente dominante.
Durante os dez dias de programação foram dezenas de lançamentos de livros, mesas-redondas, rodas de conversão e palestras que trataram dos trágicos resultados de mais de 300 anos de escravidão no Brasil. Nas pautas estiveram não apenas temas como desigualdade social, exclusão, tipos de violência, mas também as estratégias de resistência dos movimentos sociais e da luta antirracista.
“A Bienal 2025 colocou a sociedade alagoana diante dos seus mais profundos preconceitos para refletir sobre o que estamos fazendo para mudar essa realidade tão desigual”, afirmou Eraldo Ferraz, diretor da Edufal e curador da única Bienal do país realizada por uma universidade pública e totalmente gratuita. E ainda segundo ele, a história das bienais em Alagoas foi totalmente impactada pela força da ancestralidade africana, que trouxe muitos ensinamentos e axé para o evento deste ano.
Mãe Miriam: 91 anos de resistência
Uma das figuras mais celebradas e admiradas dessa força ancestral de resistência é Mãe Mirian de Nanã, madrinha da Bienal. Ela é uma reverenciada líder do Candomblé em Alagoas, reconhecida como Mestra do Patrimônio Vivo de Alagoas e Doutora Honoris Causa pela Ufal.
Ialorixá de grande sabedoria e influência, Mãe Miriam é zeladora do terreiro Ilé N'ifé Omi Omo Posú Betá. Sua ligação com Nanã, orixá da sabedoria e dos mistérios, é a base de sua liderança religiosa e de suas ações de preservação da cultura e dos saberes ancestrais.
“Estou muito feliz de ver esta festa de livros tão linda abençoada pelos orixás. Pelos preconceitos que já enfrentei em meus 91 anos de vida, nunca imaginei que um dia iria viver esse momento tão importante. Ver nossa religião ser respeitada por tanta gente”, disse.
Mulher de voz firme e com invejável força física para dar conta de tantos compromissos durante a Bienal, ela garante que está pronta e muito animada para o cortejo de encerramento do evento: “É o orixá que me comanda e conduz. É na força, na fé e na espiritualidade que vou seguindo nessa vida”.
Diário de uma mãe de santo
Patronesse da 11ª Bienal Internacional do Livro, Mãe Neide Oyá D'Oxu enxerga o evento como uma excelente momento de reparação com o povo negro de Alagoas diante de tanta dor que foi submetido ao longos dos séculos, desde os tempos da escravidão até as desigualdades sociais, marginalização, preconceitos e falta de oportunidades e de acesso ao mundo do trabalho.
“É um começo, mas nossa gente precisa lutar muito ainda para ocupar nossos espaços de direito. Esse estado, esse país, são formados a partir da nossa ancestralidade africana. Então precisamos ocupar lugar de destaque e não ficarmos à margem das decisões políticas, sociais e de poder. Basta! A injustiça não pode seguir de forma naturalizada na sociedade”, cravou.
Segundo ela, a Bienal foi um espaço de grande dimensão para trazer à tona toda essa complexa questão através de lançamentos de pesquisas, relatos de preconceito e estratégias de resistência: “Nós existimos, resistimos, somos muitos e exigimos nosso espaço na sociedade. Não é possível mais ignorar nosso valor intelectual, artístico e cultural. Somos fortes na pesquisa, culinária, nas artes”, ressaltou a patronesse da Bienal, que lançou o segundo livro, Diário de uma mãe de Santo.
Pai Célio de Iemanjá
Escrivão aposentado da polícia civil e historiador, o padrinho da Bienal afirma que a realização de um evento que tem como eixo central os saberes da ancestralidade africana é resultado de uma revolução silenciosa que começou com o ingresso de pessoas negras de axé nos cursos superiores das universidades, principalmente nas públicas, através dos sistemas de cotas raciais.
“São políticas de ação afirmativa que reservam vagas em universidades, concursos públicos e outros processos seletivos para grupos historicamente marginalizados, como negros (pretos, pardos) e indígenas, com o objetivo de corrigir desigualdades sociais e raciais. Os frutos são dezenas de trabalhos acadêmicos de extrema qualidade que trazem para centralidade da intelectualidade acadêmica temas importantes sobre as dimensões do que é ser negro no Brasil. É um novo tipo de resistência”, afirmou Pai Célio, que todos os dias era visto nos corredores da Bienal conversando com as pessoas e participando de diversos momentos de debates.
Emocionado, ele conta que o pai só entregou a chave do terreiro a ele quando entrou na Universidade: “No tempo dele, os negros do axé não sabiam ler, nem escrever. Na década de 1970, ele já entendia que nosso povo precisava ocupar as cadeiras do nível superior para explicar, cientificamente, o poder das nossas tradições. E aqui estamos nós, em uma Bienal sobre a África, sobre a força dos orixás, sobre a resistência contra a opressão e das diversas formas de nos atacar. Axé para a Bienal”, concluiu.
Sobre a Bienal
A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas é realizada pela Universidade Federal de Alagoas e pelo governo de Alagoas, com correalização da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes) e patrocínio do Senac e do Sebrae Alagoas.
Sob a curadoria do professor Eraldo Ferraz, diretor da Edufal, o maior evento cultural e literário do estado também tem como parceiros a plataforma de eventos Doity, a rede de Hotéis Ponta Verde, o Sesc, a Prefeitura de Maceió por meio da Secretaria Municipal de Educação (Semed) e o Instituto Federal de Alagoas (Ifal), além das secretarias de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult), de Turismo (Setur) e de Comunicação (Secom) de Alagoas.
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