Quilombo Muquém mantém tradição das peças feitas de barro
Feito à mão, com alma e história, estande traz representatividade através das esculturas
Kamylla Lima - jornalista / Jônatas Medeiros - fotógrafo
Camila e Casemiro fugiram em busca de liberdade. Escondidos na mata, tentavam sobreviver como podiam. Antes escravizados, precisaram encontrar formas para manter a subsistência. Surgiu, então, a ideia de pegar o barro e fazer uma panela para poder cozinhar. Utilizaram o que havia à disposição: a matéria-prima era o barro, folhas e galhos. Essa é uma das histórias sobre como nasceu uma das tradições mais longevas do Quilombo Muquém, em União dos Palmares. De lá para cá, muitos anos se passaram e o legado quase foi esquecido, mas hoje ele segue pulsante e firme. Prova viva é o estande na 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, com peças de barro feitas por 13 artesãos da comunidade.
Passada de geração em geração, o que era necessário para a sobrevivência virou arte - que, a princípio, era feita exclusivamente por mulheres. Em casa, elas empenharam força e engenhosidade para manter viva a tradição, produzindo panelas e moringas, as chamadas peças utilitárias. A passar do tempo, esse fazer cotidiano ganhou novos significados e se transformou em expressão artística e afetiva.
Mas foi com a geração de Albertina Nunes, que há mais de 30 anos produz esculturas, que a tradição ganhou novo fôlego. Ela quem enxergou na panela de barro o poder da ressignificação. Colocada de ponta-cabeça, a panela virou gente: ganhou olhos, nariz, boca e cabelo de pitó e de trança, herança da infância das próprias mulheres da comunidade, cujas mães faziam os penteados em seus cabelos.
Inspirada na mestra Irinéia Rosa, autora da famosa escultura O Beijo, Albertina e outras artesãs continuam cozinhando o barro para levar ao mundo a história de resistência do povo quilombola do Muquém, palavra que significa “se esconder”, “se amuquenhar”, mas que, na verdade, hoje representa elevação, transcendência e voz à luta por meio da arte.
Processos de criação e de produção
O processo de criação é relativamente rápido, mas o de produção demora dias. Cada artesão trabalha em sua própria casa, com seu próprio forno, que queima preconceitos e dores do passado, dando lugar à construção de uma nova história. Depois desse processo, as peças ainda precisam ir ao sol para secar e ficarem prontas para a venda.
É assim, usando elementos da natureza, os mesmos que foram cruciais no passado para Camila e Casemiro, que os artesãos seguem contando sua história em cada criação - sobre estar vivo, apesar de tudo. O sol, o fogo, o barro e a memória se entrelaçam, construindo uma teia forte de histórias de um povo que já foi silenciado e excluído.
Emoção
Na Bienal, que traz o tema Brasil e África – ligados culturalmente em seus Ritos e Raízes, Albertina se emocionou ao falar sobre a representatividade do momento. “É uma honra enorme estar aqui. Quando a gente vê uma Bienal com o tema África, o coração da gente bate mais forte. Porque a gente se vê, se encontra. A gente encontra nossas raízes, nosso sangue, nosso povo. Ver quilombolas, indígenas, pessoas pretas juntas… isso é muito importante. É o nosso lugar de fala, de existência”, disse.
No estande estão expostas peças de 13 artesãos do Muquém, entre elas esculturas de rostos femininos com diferentes penteados afro, moringas, panelas, bonecas quilombolas, colares e bijuterias moldados em barro. Há também pequenas figuras inspiradas em personagens históricos como Zumbi, Dandara e Jorge de Lima, além de utensílios tradicionais da comunidade.
Albertina contou que cada peça carrega uma história única e que o trabalho, além de artístico, é espiritual. “A gente faz tudo com o coração. Cada toque na peça é uma lembrança da nossa história. Quando o barro está nas minhas mãos, eu lembro da minha mãe, da minha avó… é como se eu conversasse com elas. É a forma que a gente tem de manter viva a nossa cultura e o amor pelo que somos”, refletiu.
Alegria em participar
Quem também participa da exposição é Adriana Maria, uma das artesãs responsáveis por organizar o grupo. Ela contou que o convite para a Bienal foi feito pela Mãe Neide, com o apoio da Prefeitura de União dos Palmares. “Para gente é uma alegria imensa estar aqui. Trazer o que nasce da terra e das nossas mãos é valorizar a cultura do nosso povo. O barro vem da beira do rio, lá mesmo na comunidade, e é transformado por nós em peças únicas, cheias de energia e significado”, celebrou.
Ela reforçou o sentimento de coletividade e de continuidade entre as gerações do Muquém. “Hoje somos artesãos ativos, e essas peças que trouxemos representam todos. É um trabalho de resistência e união. A gente quer que o mundo conheça o que é feito lá, com tanta fé, paciência e orgulho”, completou Adriana.
Sobre a Bienal
A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas é realizada pela Universidade Federal de Alagoas e pelo governo de Alagoas, com correalização da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes) e patrocínio do Senac e do Sebrae Alagoas.
Sob a curadoria do professor Eraldo Ferraz, diretor da Edufal, o maior evento cultural e literário do estado também tem como parceiros a plataforma de eventos Doity, a rede de Hotéis Ponta Verde, o Sesc, a Prefeitura de Maceió por meio da Secretaria Municipal da Educação (Semed) e o Instituto Federal de Alagoas (Ifal), além das secretarias de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult), de Turismo (Setur) e de Comunicação (Secom) de Alagoas.
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