Mesa redonda debate vertentes do Quebra de Xangô de Alagoas
Episódio norteou o debate entre os líderes de religiões de matriz africana e o público - Foto: Jônatas Medeiros

Mesa redonda debate vertentes do Quebra de Xangô de Alagoas

Atividade abordou episódio ocorrido em 1912 e fez análise histórica sobre a narrativa que reforça o racismo e a intolerância religiosa

Paulo Canuto com Rodrigo Rocha - jornalistas / Jônatas Medeiros - fotógrafo

Visando levar a discussão para além da academia, aconteceu na tarde da última segunda-feira (3) a mesa redonda Memória, resistência e intolerância religiosa: reflexões sobre o Quebra de Xangô de Alagoas, com Babalorixá Célio Rodrigues (Pai Célio), Amaurício de Jesus (Tafaroni), Ana Luiza da Silva Oliveira (Ana Tobilakijá) e Rodrigo Agra (N’Ibi Olu), com mediação da professora da Universidade Federal de Alagoas, Débora Massmann.

A mesa é fruto de duas pesquisas desenvolvidas dentro da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), orientadas por Débora dentro do Programa de Pós-Graduação em Linguística e Literatura: uma analisando as matérias jornalísticas em 1912 e a outra com foco na Coleção Perseverança, que está no Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.

“A ideia é mostrar como nós, povo de axé, da academia, a partir das ciências da linguagem e análise de discurso podemos repensar esse crime cometido contra os povos de terreiro, por isso montamos essa proposta de tirar de dentro da academia e fazer circular na sociedade o conhecimento que é produzido na universidade. Não basta nós, que além de sermos de terreiro, sermos acadêmicos e deixar que esse conhecimento fique preso dentro da academia, circulando apenas entre nossos pares. É preciso fazer esse conhecimento chegar até a sociedade de um modo geral”, ressaltou Débora.

Povos de terreiro contam a própria história

Todos os participantes são pessoas de terreiro: Babalorixá, Ogâ, Ekedi e etc. As falas foram iniciadas pelo convidado especial da mesa, o Babalorixá Célio Rodrigues (Pai Célio), que fez um panorama histórico sobre como o “Quebra” vem se reverberando ao longo dos anos e como isso afeta os povos de terreiro, mas também exaltando o aumento desse público dentro da academia discutindo sobre os temas relacionados às religiões de matriz africana.

“A academia tá entendendo que não é apenas a situação do quebra, a violência e a intolerância vão além. Observando esse episódio de várias outras óticas e ter o povo de axé que está na academia, com essa funcionalidade de falar de nós para mostrar outra coisa, mostrar de forma positiva as várias vertentes do quebra, que se tornou fonte de pesquisa e isso é de suma importância para nós”, comentou o babalorixá.

Já a doutoranda Ana Luiza da Silva Oliveira (Ana Tobilakijá) norteou seu trabalho a partir de sua experiência no grupo de trabalho que fazia a solicitação para tombamento da Coleção Perseverança, que é fruto das peças que foram roubadas no Quebra de 1912, e durante os debates da mesa, socializa os resultados e impressões sobre o processo histórico de mais de cem anos desde o crime contra os povos de religião de matriz africana em Alagoas.

“Pensar que o quebra aconteceu em 1912, a mais de cem anos, e analisar esses discursos produzidos trazendo para a Bienal é como fazer com que essa discussão ganhe uma outra visibilidade, que ganha outros espaços, porque a gente consegue falar sobre isso tanto dentro do terreiro como dentro da academia, mas aqui na Bienal a gente sabe que tem um outro público que nem é de terreiro e que nem é da academia que vai poder estar ouvindo, sabendo desse fato que é importante para as pessoas conhecerem a história de Alagoas”, contou Ana Luiza.

Da dissertação de mestrado para o doutorado

O babalorixá Rodrigo Agra (N’Ibi Olu) também trabalhou a questão do discurso em sua dissertação de mestrado, porém, sua pesquisa foi norteada pelas matérias de jornais da época que em vez de noticiar o crime do Quebra de Xangô, investiram na narrativa de ter as religiões de matriz africana como bruxaria e religião que cultua o demônio. Era dessa forma que as informações do Quebra circulavam, na ocasião Além do relato, Rodrigo trouxe recortes de jornais onde traziam as manchetes em tons pejorativos e intolerantes.

“A gente sofre o Quebra de várias formas. É diferente do que foi antigamente, né? Do que foi realmente o Quebra de Xangô. Então, a gente discutir aqui na Bienal isso, trazer essas questões para quem também não é de matriz africana é trazer um pouco mais de consciência, né? Trazer essa criticidade a respeito do tema, dizer que as religiões de matriz africana não são demoníacas, afinal de contas, esse demônio não nos pertence’, disse, complementando que, pelo fato de o assunto ser tão amplo e com tantas frentes possíveis, a pesquisa transformou-se numa tese de doutorado que está em curso.

Para finalizar, a professora Débora contou como é importante que pessoas de axé estejam na academia e que possam usar sua fé como instrumento de pesquisa: “Isso é necessário, é urgente e nós precisamos de mais pessoas de axé na academia pesquisando os temas relacionados ao axé de um modo geral, não só em relação ao Quebra de Xangô, mas também em relação a todas as outras formas de significação do axé em Alagoas e fora dele. É como a gente diz, né: nós temos que falar sobre nós”, finalizou.

Sobre a Bienal

A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas é realizada pela Universidade Federal de Alagoas e pelo governo de Alagoas, com correalização da Fundação Universitária de Desenvolvimento de Extensão e Pesquisa (Fundepes) e patrocínio do Senac e do Sebrae Alagoas.

Sob a curadoria do professor Eraldo Ferraz, diretor da Edufal, o maior evento cultural e literário do estado também tem como parceiros a plataforma de eventos Doity, a rede de Hotéis Ponta Verde, o Sesc, a Prefeitura de Maceió por meio da Secretaria Municipal de Educação (Semed) e o Instituto Federal de Alagoas (Ifal), além das secretarias de Estado da Cultura e Economia Criativa (Secult), de Turismo (Setur) e de Comunicação (Secom) de Alagoas.

Acompanhe as novidades da Bienal 2025 por meio do site oficial e também pelas redes sociais com o perfil @‌bienaldealagoas no Instagram, Threads e Facebook.

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