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Com a realização da 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, a Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal) orgulha-se em ser a única instituição pública do país a realizar bienais gratuitas desde 1998.

Em 2025, sob a influência do símbolo africano da Sankofa, a Edufal faz o sábio movimento de olhar para o passado e aprender com ele para construir um futuro melhor. Assim, na segunda gestão do professor Eraldo Ferraz, nasce o projeto Memória Bienal – um resgate de números, nomes, histórias e transformações de vidas a partir de encontros literários e culturais.

Fruto de intensa e minuciosa pesquisa em documentos oficiais, arquivos de jornais impressos, espaços virtuais de informação e dezenas de entrevistas, o conteúdo produzido pelo jornalista Roberto Amorim é, antes de tudo, a comprovação da ousadia, da coragem e de muito trabalho das mulheres e homens por trás de 11 bienais e 5 salões do livro e da arte.

É, ao longo de quase 30 anos e cerca de 3 milhões de visitantes, a reafirmação crescente do gosto dos alagoanos e alagoanas pela leitura, reflexão acadêmica e criação artística.

“Hoje sou professora graças à bienal”; “A bienal mostrou que eu também tinha direito a um livro”; “Na bienal comprei minha primeira obra e não parei mais de ler”. Esses relatos são a gênese e a justificativa do Memória Bienal.

Boa leitura e descobertas!

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1998

o ano em que uma bienal do livro fertilizou o árido chão alagoano

1998

Roberto Amorim

Às 18h do dia de 14 de setembro de 1998, a Edufal (Editora da Universidade Federal de Alagoas) deixaria para trás sua timidez para se transformar na primeira e única instituição pública do Brasil a realizar uma bienal do livro gratuita.

E tem mais. Em 2025, vinte e sete anos depois, não só mantém o título, como também multiplicou as ações a cada edição, saindo de 50 mil visitantes na década de 90 para quase meio milhão em 2023.

Na prática, isso significa que o foco do maior evento literário de Alagoas não é vender livros, mas fortalecer o acesso à leitura, aos autores e, principalmente, atrair milhares de crianças, adolescentes e adultos para um espaço onde o protagonismo é da palavra escrita.

As pioneiras bienais de São Paulo (1970) e do Rio de Janeiro (1980) nasceram com vocação comercial e se consolidaram como grandes feiras de livros. Modelo que foi seguido pelo resto do país, tendo como única exceção as terras alagoanas.

"Costumava frequentar as principais bienais de do livro do país. Em uma dessas viagens, lamentei profundamente o fto de não haver eventos literários semelhantes em Alagoas. Refleti especialmente sobre as pessoas que não têm recursos para acessar bens culturais", conta Leda Almeida, professora aposentada da Ufal e ex-diretora da Edufal.

A reflexão dela se transformou em motivação para idealizar e executar a I Bienal do Livro e da Arte em Alagoas, que durante seis dias ocupou o grande salão principal do Iate Clube Pajussara. "Já que a maioria dos alagoanos não poderia visitar as bienais em outros estados, por que não criar uma aqui e garantir esse acesso a todos?".

O marco zero de 27 anos das bienais no estado continua inédito, histórico e inspirador. Por exemplo, foi a única bienal realizada sem financiamento público ou patrocínio privado direto, contando apenas com apoio institucional e logístico de parceiros. Entre eles o Iate Clube Pajussaram, a galeria Karandash e a empresa responsável pela montagem dos 14 estandes.

Os famosos escritores Dias Gomes e Frei Betto participaram sem cobrar cachê e a estadia deles em maceió foi custeada pela Ufal. A equipe de produção era Leda Almeida, os poucos servidores da Edufal e quatro estagiários.

"Começamos a trabalhar envolvidos por uma energia incrível, vibrando com a ideia de uma bienal em Alagoas e contagiados pela certeza de estarmos iniciando algo especial", lembra a ex-diretora da Edufal. "A primeira bienal era um sonho pessoal que logo se tornou coletivo".

Siron Franco e artistas alagoanos

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Mas as condições não eram favoráveis. Existiam dois grandes temores: pouco público numa cidade com escassez de livrarias e o desinteresse das editoras num evento sem garantia de retorno comercial.

Para ser mais atrativa, a primeira bienal expandiu seus braços para exposição de artes plásticas e incluiu na programação desde espetáculo de ballet clássico até roda de capoeira, passando por teatro de rua, pastoril, shows musicais, oficinas artísticas e muitas horas de contação de histórias - oportunidades valiosas para o desenvolvimento infantil, promovendo imaginação, criatividade e habilidades linguísticas.

O público alagoano pode ver de perto as obras da série "Abstrações" do internacionalmente famoso artista brasileiro Siron Franco e de pintores da terra, como Persivaldo Figueirôa, Gicélia Sampaio, Rosivaldo Lemos, Carmen Omena, Suel, além das esculturas de Marta Arruda e os trabalhos híbridos de Dalton Costa e Maria Amélia Viera.

"A mistura de estilos, temas, tamanhos, formatos, técnicas possibilitou que as pessoas conhecessem e se relacionassem com tudo que era oferecido e pudessem refletir assuntos pertinentes ao mundo, a vida e os movimentos artísticos", diz Maria Amélia, responsável pela curadoria dos dois grandes e instigantes estantes dedicados ao fazer artístico.

Ela afirma que, enquanto artista e galerista, o que a estimula são as novidades, os convites que provocam um movimento em busca do novo, construir ou iniciar um processo, um caminho em nome da arte. "O convite de Leda Almeida nos pareceu desafiador".

Maria Amélia conta que a ideia da inclusão da arte numa bienal do livro foi de começar um processo de conhecimento e reconhecimento dos artistas alagoanos e de suas obras.

Há 27 anos em Alagoas, a arte era muito tradicional e tinha como público pessoas da sociedade com poder aquisitivo maior e as obras ficavam expostas nas poucas galerias de arte e lojas de decoração que dominavam o mercado da época.

Esse ciclo foi quebrado pela I Bienal do Livro e da Arte em Alagoas, que inicia um processo de democratização dos bens culturais, expondo a arte em ambiente externo e à disposição dos olhos de todos, compartilhando o mesmo espaço com a Literatura.

"O intuito foi de provocar o público colocando lado a lado as obras com seus processos, técnicas e resultados. Oferecer o que tínhamos para que o grande público finalmente tivesse acesso e pudessem fazer parte do mundo da arte alagoana", reforça Maria Amélia, que divide a criação e a direção da Galeria Karandash com o também artista contemporâneo Dalton Costa.

Editoras, livrarias e autores

A quantidade de editoras, livros, lançamentos e autores reunidos num mesmo espaço foi impactante e espantoso numa época que não existiam vendas online e Maceió contava com raras e bravas livrarias, como as saudosas Caeté e Resma. Quase três décadas depois, Alagoas continua figurando entre os cinco estados com pior índice de leitura no país.

A I Bienal do Livro e da Arte em Alagoas, em 1998, afrontou esse problema e trouxe à cidade diversas editoras nacionais, como Bagaço, Ática, Record, Vozes Index, HD Livros e livrarias do porte da Bertrand Brasil – maior rede de livrarias de Portugal.

Foram contabilizadas aproximadamente 50 sessões de lançamentos e autógrafos, boa parte com o selo da Edufal, de escritores alagoanos como Ruth Quitella, Luiz Sávio de Almeida, Lúcia Guiomar, Maurício de Macedo, Heliônia Ceres e Simone Calcante.

Patrono da bienal, Frei Betto lançou "Entre todos os homens", autografou e conversou com o público. O dramaturgo, romancista e imortal da Academia Brasileira de Leras, Dias Gomes (1922 – 1999), também esteve por aqui para lançar "A Invasão" (editora Bertrand Brasil) e receber o Prêmio Graciliano Ramos – Troféu Amido do Livro.

Polêmica, a novo livro do autor de novelas como "Roque Santeiro", "Irmãos Coragem" e "O Bem-Amado" focalizava o drama intenso e amargo dos sem-teto moradores de uma favela carioca que perderam suas casas depois de uma enchente.

Emocionada ao lembrar da pioneira bienal, Diva Lessa, uma das mais antigas servidoras da Edufal, afirma que "foram dias de magia com muita literatura, música, teatro e salão lotado todos os dias".

Ela se orgulha de ter participado de todas as bienais em 27 anos de história literária de desafios, mas incontáveis vitórias. "Só estamos agora, em 2025, organizando a 11ª bienal porque tudo começou com a primeira, lá atrás. Foi um marco na história cultural de Alagoas. Um evento inédito e maravilhoso, que ofereceu uma rica e diversificada programação cultural e gratuita para população".

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Palavras que marcaram vidas

Aos 11 anos, Marseille, filha de Diva, também assumiu protagonismo durante os dias da bienal. A convite do professor do curso de Letras da Ufal, Roberto Sarmento, ela se transformou na personagem infantil Chapeuzinho Vermelho e desfilou pelos corredores de estandes do salão do Iate Clube Pajussara.

"Vestiram-me com uma roupa linda, feita especialmente para o personagem, e eu me sentia completamente imersa naquele papel. Essa experiência reforçou ainda mais meu amor pelas histórias e me fez perceber que queria continuar nesse mundo", conta Marseille, que, assim como a mãe, nunca perdeu uma bienal; aprofundou o gosto pela leitura e admiração pela Universidade Federal de Alagoas, onde fez graduação, mestrado e doutorado.

E as lembranças continuam: "Estar na Bienal era como entrar em um livro de histórias infantis, no qual cada corredor parecia esconder um novo mundo a ser descoberto. Eu fazia questão de passar o dia inteiro por lá, enquanto minha mãe trabalhava".

Ela conta que até hoje compartilha esse mesmo encantamento com as filhas, que cresceram nesse universo de livros e histórias. "Vamos juntas à Bienal e vivemos essa experiência de forma intensa e divertida, assim como eu fazia quando criança".

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Quase três décadas depois, a trajetória dessas três gerações de mulheres leitoras (Diva, a filha e as netas) reafirma o princípio e a força motriz para criação da I Bienal do Livro e da Arte em Alagoas: a promoção da literatura e a formação de leitores.

"Tenho observado que, infelizmente, muitas bienais brasileiras estão perdendo essa essência, tornando-se feiras genéricas que comercializam produtos diversos e afastam-se do objetivo original", lamenta Leda Almeida. "A Bienal de Alagoas é um exemplo concreto de que é possível manter-se fiel ao propósito original e ainda assim obter sucesso".

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1999-2004

A intinerância democrática dos salões do livro e da arte em Alagoas

1999-2004

Roberto Amorim

Em 1999, quando foi publicada a portaria designando o professor Eraldo Ferraz como diretor da Edufal (Editora da Universidade Federal de Alagoas), ele sabia que iria enfrentar o maior dos desafios da carreira acadêmica: a responsabilidade de dar continuidade à I Bienal do Livro e da Arte em Alagoas, realizada no ano anterior.

O experiente docente do Centro de Educação da Ufal tinha a certeza de que não seria tarefa fácil. O maior evento literário em chão alagoano havia contabilizado mais de 50 mil visitantes, dezenas de oficinas, apresentações artísticas, lançamentos, sessões de autógrafos e trazido para Maceió gente de peso da literatura nacional, como Dias Gomes e Frei Betto, e nas artes plásticas, Siron Franco.

Inquieto e proativo, o novo diretor da Edufal decidiu que não iria esperar dois anos para realizar a segunda edição da bienal. “Por considerar de extrema importância eventos literários e artísticos em Maceió, além de alcançar o maior número de pessoas, decidimos criar o Salão Alagoano do Livro e da Arte, com edições anuais e em espaços diferentes”.

Na prática, isso significou menos de 12 meses para cumprir a impressionante lista de tarefas, que vai desde a escolha do local até logística de montagem, passando pela busca de parcerias, patrocínio, contado com escolas, artistas, autores, editoras, livrarias...

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“É preciso ressaltar a ousadia e o imenso esforço de toda equipe da Edufal para a execução do I Salão do Livro e da Arte, realizado no mês de outubro na praça Multieventos, na orla da praia da Pajuçara. Foi um grande sucesso e confirmou a adesão do público ao novo formato do maior evento literário e cultural da cidade”, afirma Ferraz, que, à época, conseguiu o apoio da Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC) através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

Os princípios de democratizar o acesso aos livros e aproximar autores e artistas do grande público continuaram sinalizando o caminho para a construção das quatro edições do Salão do Livro e da Arte e uma edição da Expolivro. Os homenageados foram o historiador Dirceu Lindoso e o artista plástico Antônio Deodato.

E, a cada ano, a quantidade de estandes e visitantes aumentava, consolidando o lugar de protagonista do livro no calendário cultural de Maceió e impedindo quaisquer possibilidades de retração ou extinção do evento que, em apenas um ano, triplicou de tamanho.

De 11 a 17 de outubro de 1999, por exemplo, estima-se que passaram pelos 40 estandes montados na praça Multieventos mais de 50 mil homens, mulheres, adolescentes e crianças. Muitos deles turistas que visitavam a cidade e se deparavam com uma praça à beira-mar abarrotada de livros, exposição de artes plásticas, shows musicais e oficinas diversas, além da presença diária de pesquisadores e escritores alagoanos.

Serraria, Jaraguá e Pajuçara

Embalado pelo sucesso de público e vendas do I Salão do Livro e da Arte de Alagoas, o diretor da Edufal e sua reduzida e corajosa equipe reafirmaram a realização anual do evento e mantiveram a itinerância.

A segunda edição (2000) aconteceu nos imensos salões do Museu de Arte Brasileira da Fundação Pierre Chalita, localizado na praça Manoel Duarte, bairro de Jaraguá. A seguinte (2002) foi no imponente prédio da Associação Comercial de Maceió, na histórica Rua Sá e Albuquerque, quem também abrigou, no Armazém Dom José (atual Espaço Armazém) o IV Salão, em 2003.

Também realizaram uma Exporlivro, em 2001, como uma das atrações da Expoagro, no antigo Parque da Pecuária, no bairro da Serraria. O evento reuniu milhares de pessoas e ainda ofereceu exposição de artesanato alagoano e veículos antigos. Foram montados 180 estantes, quatro restaurantes e 18 bares num espaço de 85 mil metros quadrados, com shows de artistas sertanejos como Zezé Di Camargo & Luciano.

Os onze dias da Expolivro também foram marcados por intensa visitação de alunos de escolas públicas, participação de 50 editoras do Brasil e de Portugal, lançamento de 22 livros da Edufal e, principalmente, aproximou milhares de exemplares de livros dos moradores da parte alta da cidade.

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“O maior desafio era encontrar um lugar para a realização. Em cada ano buscávamos um lugar que desse para montar toda a estrutura de estandes tendo em vista que ainda não tínhamos um centro de convenções em Maceió”, ressalta Eraldo Ferraz.

E continua: “Entendíamos que o livro poderia estar em qualquer espaço desde que o público tivesse segurança de frequentar e aproveitar das atividades culturais disponibilizadas, além dos livros das editoras e livrarias. Era um desafio, mas, com a ajuda de patrocinadores e apoiadores, conseguimos realizar cada edição com sucesso durante cinco anos consecutivos”.

É nessa efervescência que o então estudante do curso de Administração de Empresas da Ufal e estagiário da Edufal, Sebastião Medeiros, tomou gosto pela organização de eventos literários e o mercado literário. Seu nome consta não apenas na lista da equipe de staff de todos os salões e bienais do livro de Alagoas, como também ele é responsável pela livraria virtual Quilombada, que, desde 2018, comercializa obras de autores alagoanos ou publicados pelas editoras locais.

“Graças às parcerias que mantemos, estamos vendendo diversos títulos das principais editoras de Alagoas, entre elas, a Imprensa Oficial Graciliano Ramos, Editora do Cesmac, Eduneal, Edufal e CBA, além de títulos de autores independentes alagoanos”, diz Sebastião, na correria dos preparativos da sua 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas. “São 27 anos tendo o privilégio de trabalhar para oferecer ao público alagoano, a cada edição, uma bienal com mais possibilidades de acesso a maior variedade de livros, editoras e livrarias nacionais e estrangeiras”.

Autores e artistas

O acontecimento de cinco edições do Salão do Livro e da Arte de Alagoas possibilitou aos alagoanos a oportunidade de conhecer os autores da terra e suas obras, muitas vezes mais celebradas em outros estados do país.

Um desses nomes foi o da escritora e ilustradora de livros infantis Ruth Quintella. Seus livros caíram no gosto de uma geração de leitores, sobretudo pela atuação marcante de personagens como “Amarelinha”, a pequena borboleta que deseja voar mais alto; o sapo clonado “Babau”; os caranguejos “Gueguê” e “Jojó” no manguezal - este último transformado num fantoche do programa infantil Caralâmpia, da TV Educativa.

Nas entrelinhas das histórias, estão presentes as preocupações da autora com temas da cultura e do meio ambiente, mas sem perder de vista o teor ficcional e imaginativo do texto. Durante os salões do livro e da arte ela lançou livros como “O gogó da ema”, “Vento Norte”, “A tartaruguinha que não saiu do ovo”, “Vento Nordeste” e “Amarelinha, uma pequena borboleta”.

“Foi justamente ouvindo histórias contadas por dona Ruth e lendo seus livros que comprei no II Salão do Livro e da Arte que decidi estudar literatura na Ufal e me tornar professora”, diz Ana Flávia, 33 anos, que lembra dos livros de 10 metros instalados na entrada da Fundação Pierre Chalita.

Seguindo os passos de Ruth Quintella, a professora incentiva o hábito da leitura nos filhos e sobrinhos. “Uma vez por semana todos se reúnem aqui em casa para falar do livro que cada um está lendo. Na nossa turma, o celular vem em segundo plano”.

O contato autor-leitor ganhou lugar de destaque garantido durante as realizações dos salões do livro. Na segunda edição, em 2000, foi aberto o espaço Salão de Ideias, onde aconteceram entrevistas e bate-papos com diversos autores alagoanos sobre suas produções das mais variadas áreas. Em 2023, o espaço ficou ainda maior, com mais convidados e foi renomeado para Café Literário, que recebeu escritoras como Arriete Vilela, Anilda Leão e Solange Chalita, Belmira Magalhães e Vera Romariz.

As exposições de artes plásticas cada vez mais robustas e intensa programação cultural também marcam as cinco edições do Salão do Livro e da Arte de Alagoas. Nos itinerantes palcos se apresentaram desde o Ballet Íris de Alagoas até folguedos populares, como pastoril e o guerreiro, passando por shows como os dos cantores Basílio Sé, Chico Eupídio e Macléim.

“Na memória ficaram as atividades multiculturais que aconteciam simultaneamente com as vendas dos livros. De lá para cá, muitas coisas mudaram. Após 2003, o centro de convenções já estava pronto, garantindo, assim, a volta da Bienal do Livro de Alagoas com realização a cada dois anos”, ressalta o diretor da Edufal.

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2005

a Bienal que transformou o livro em protagonista

2005

Roberto Amorim

“Quem monta um evento desses sem patrocínio de grandes empresas tem que ter uma boa dose de loucura”. A afirmação do escritor Moacyr Scliar aconteceu em outubro de 2005, num restaurante em Maceió, durante almoço com a então diretora da Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal), Sheila Maluf.

Ele acabara de chegar à cidade para participar da II Bienal Nacional do Livro de Alagoas, que aconteceu de 19 a 25 de outubro no Clube Fênix Alagoana, à beira-mar, na praia da Avenida. Assim como nas edições passadas, o acesso ao espaço e às atividades literárias e culturais foi gratuito. Uma marca da bienal alagoana. É a única no Brasil realizada por uma editora pública e com acesso gratuito, sem pagamento de ingresso, o que não acontece no resto do país.

A presença de Scliar e de outros escritores e escritoras de reconhecimento nacional foi emblemática e simbólica. Marcava que, a partir de então, o livro seria o único protagonista do evento. De 1998 a 2003, literatura e artes plásticas dividiram o espaço da primeira bienal e de cinco edições do Salão do Livro e da Arte de Alagoas.

“Adotamos o formato das grandes bienais, como as realizadas no Rio de Janeiro e São Paulo, por entendermos que o livro deveria ser a grande atração, principalmente num estado como Alagoas, com baixos índices de leitura. Tudo foi pensado para colocar a literatura em evidência, pois acreditamos que por meio da leitura as pessoas são, espontaneamente, levadas a dialogar com outras linguagens artísticas”, explica Maluf, que, além de 2005, fez a curadoria das bienais de 2007, 2009, 2011 e 2023.

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A partir desse norte, o maior evento literário do estado montou uma vasta programação com dezenas de lançamentos, sessões de autógrafos, participação de 233 editoras em 52 estandes e 14 palestras com escritores alagoanos e de outras partes do Brasil.

Além de Moacyr Scliar, passaram por Maceió Fernando Morais, Guiomar Namo de Mello, Raimundo Carrero, Sérgio Sá, Marisa Lajolo, Pedro Bandeira, Amir Piedade, Ana Maria da Costa Cruz, Antônio Torres e Lêda Maya.

O patrono da celebração literária de 2005 foi o romancista e poeta Lêdo Ivo. Autor do famoso romance “Ninho de Cobras” e dezenas de outras obras de poesia e contos, o escritor e tradutor maceioense ocupou a cadeira número 10 da Academia Brasileira de Letras de 1986 até dezembro de 2012, quando morreu em Sevilha, Espanha.

“É um orgulho ver minha terra, minha Maceió, empenhada em homenagear a riqueza da literatura brasileira. Fazer a juventude se apaixonar pelas letras e possibilidades infinitas que elas proporcionam é uma obrigação de todos nós. Uma bienal do livro é sempre uma excelente oportunidade para crianças, jovens, adultos e idosos vivenciarem essa experiência inesquecível de estar num lugar onde o livro é a peça principal”, disse, à época, Lêdo Ivo, considerado um dos mais importantes escritores do século XX e que, durante a bienal recebeu o título de Doutor Honoris Causa, da então reitora da Universidade federal de Alagoas (Ufal), Ana Dayse Dorea.

Representante do movimento literário-artístico conhecido como Geração de 45, a obra de Lêdo Ivo é marcada pela busca da beleza e da verdade, com uma poesia comprometida com o indivíduo e a sociedade, o que o consagrou como um dos maiores poetas do século XX.

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Críticos literários afirmam que sua literatura é intimista, introspectiva e com traços psicológicos, afastando-se do descontrole e do prosaísmo. A poesia de Lêdo Ivo abordava temas como amor, morte e a natureza, mas sempre com um compromisso com a sociedade e o indivíduo.

A estratégia de priorizar a literatura na segunda bienal deu certo. Em poucos dias, o público correu para preencher as 450 vagas ofertadas em 14 palestras e 12 oficinas. Entre as mais concorridas foi a atividade intitulada “A criação na literatura brasileira”, ministrada pelo escritor Raimundo Carrero, autor de livros como “As sombrias ruínas da alma” (Prêmio Jabuti, em 2000) e “Somos pedras que se consomem”, que lhe rendeu o Prêmio Machado de Assis, da ABL (Academia Brasileira de Letras), em 1999.

Aos 19 anos em 2005, a estudante do curso de Letras, com habilitação em Literatura, da Ufal, Rosângela Amorim, praticamente acampou no Clube Fênix Alagoana para não perder nenhuma palestra e oficinas dos escritores famosos que estavam em Maceió pela primeira vez graças a II Bienal Nacional do Livro de Alagoas.

“Em muitos momentos chorei de emoção ao ouvir, conversar, pedir autógrafo e até abraçar escritores que adorar ler suas obras. Foi tudo incrível. A bienal confirmou que estava no caminho certo da minha futura profissão”, diz a hoje professora de Literatura Brasileira em escolas públicas e privadas de Maceió. “Tenho certeza que assim como a minha, aquela bienal transformou a vida de muitas outras pessoas. A literatura tem essa força, de mudar pensamentos e ações”.

Batalhas travadas e vencidas

Mas, para acontecer, atingir a marca de 50 mil visitantes e 100 mil livros comercializados, a II Bienal Nacional do Livro de Alagoas começou a ser gestada ainda em 2004, quando a então professora dos cursos de Letras e Teatro, Sheila Maluf, atendeu a convocação da reitora Ana Dayse para sentar na cadeira da direção da Edufal.

A missão era clara: um ano depois transformar em realidade o desejo da retomada da bienal em Alagoas, num evento ainda maior e com proposta literária expandida. A missão também não deixava dúvidas: conseguir parcerias e recursos para executar o plano, pois o orçamento da universidade não previa tamanha ousadia.

A partir daí, conta a ex-diretora da Edufal, iniciou uma via-crúcis de produção de projetos de patrocínio, marcação de reuniões e longas conversas para convencer empresários e gestores públicos a embarcar no maior evento literário de Alagoas.

“Há 20 anos, a bienal não tinha a força, credibilidade e visibilidade que tem hoje. Muitas vezes nem era recebida para apresentar o projeto, mas insistia tanto que vencia pelo cansaço. Aos poucos fomos fechando alguns apoios, mas tudo ainda muito tímido. Não tivemos patrocinadores fortes”, lembra Maluf, que usava o próprio carro para o translado dos convidados dos outros estados, que ficavam hospedados no Hotel Ponta Verde, parceiro de diversas outras bienais. “Eles vieram a Maceió sem cachê, fruto das negociações entre nós e a editoras que os representavam”.

Ela e sua pequena equipe da Edufal se dividiam em diversos fronts para a materialização da segunda bienal. O administrador de empresas Sebastião Medeiros, por exemplo, foi o responsável por convencer dezenas de editoras e livrarias nacionais a ocupar os 52 estandes disponíveis

A experiência lhe rendeu expertise no assunto, o que fez não só trabalhar em todas as outras edições da bienal, como montar seu próprio negócio, a Quilombada Editora, especializada na produção literária alagoana.

A busca por estudantes também demandou tempo e muita conversação com pedagogos e diretores de escolas públicas e privadas. Era preciso garantir a riqueza literária, cultural e segurança do evento para convencer pais e professores a organizarem visitas guiadas ao Clube Fênix.

“Foi um trabalho de formiguinha que deu muito certo. Era lindo ver a fila de ônibus escolares estacionados em longos trechos da Avenida da Paz. Crianças e adolescentes de vários bairros da cidade lotaram a bienal todos os dias”, lembra Maluf, que precisou das suas habilidades da graduação em Educação Artística pela Fundação Armando Álvares Penteado para tornar o espaço ainda mais atrativos.

Com mestrado e doutorado em Artes pela Universidade de São Paulo, ela não se limitou às ações práticas e burocráticas das suas empreitadas como gestora. Mas participou ativamente da concepção da ambientação e da identidade visual do evento no Clube Fênix.

Sem recursos para contratação de arquitetos ou designers, acrescentou as suas tarefas a missão de tornar os espaços da bienal mais atrativo, principalmente para crianças e adolescentes. Tendo como referência a tenda do circo, montou uma arena de fitas nas cores da bandeira de Alagoas (azul, vermelho e branco) no pátio central do clube.

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Também transformou a parte superior do prédio num grande salão para lançamento de livros e palestras, além de incluir diversos elementos lúdicos no circuito da ainda tímida II Bienal do Livro de Alagoas.

“Bienal do livro é diferente de feira literária, que acontece nas ruas e em diversos espaços. Por isso, retomamos o formato de concentrar tudo num único espaço para reforçar o lugar de destaque do livro e o público ter acesso a todas as possibilidades num único espaço. Isso também deu mais praticidade e segurança para aumentar o fluxo das visitas das escolas públicas e privadas”.

Segundo ela, a bienal de 2005 é muito importante para a história do evento em Alagoas. “Foi a semente da bienal que conhecemos hoje. O passado nos ensina que podemos transformar sonhos em realidade. Para isso, temos que enfrentar muitas batalhas e vencer todas elas. A tímida bienal daquela época se transformou nessa grande celebração literária, que cresce a cada edição”.

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2007

quando Alagoas ganhou status internacional

2007

Roberto Amorim

Entusiasmada com os resultados positivos e surpreendentes da II Bienal Nacional do Livro de Alagoas (2005), dois anos depois a Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal) deixou para trás a timidez dos primeiros passos e decidiu entrar no calendário das bienais do país apostando na expansão do espaço, das editoras, livrarias, programação, estandes, ambientação e diálogo para além das fronteiras brasileiras.

Não à toa, a então diretora Sheila Maluf foi até a Câmara Brasileira do Livro (CBL) solicitar o status de internacional para a bienal realizada em chão alagoano. Voltou de São Paulo autorizada a dialogar com outros países e, pela primeira vez, garantiu a participação de representantes de nações além-mar, como França e Portugal. Das américas vieram as literaturas do Peru e do México.

Erivan Gomes, diretor da CBL, esteve em Maceió para a abertura da III Bienal do Livro de Alagoas, sendo a primeira com o selo de evento internacional. “Apoiamos a iniciativa da Edufal nesse intercâmbio com outros países. O status de evento internacional é muito importante não só para o mercado editorial, mas para escolas, universidades e leitores que tiveram acesso à produção literária estrangeira. Com isso, a bienal de Alagoas ganhou visibilidade no resto do país e entrou no circuito nacional”.

Essa conquista somou-se a outra: garantir, por 10 dias, os 48 mil metros quadrados de área total do Centro Cultural e de Exposições de Maceió, no histórico bairro de Jaraguá, inaugurado dois anos antes, ficou exclusivamente à disposição da literatura. Até então, as edições das bienais passadas foram realizadas em diversos espaços da cidade, que não comportavam mais o aumento de fluxo.

“Solicitei a reserva dois anos antes no sentido de poder abrigar a expansão das atrações e dobrar o número de visitantes”, conta Maluf, que também conseguiu aumentar a força dos patrocinadores e apoiadores para colocar em prática planos ambiciosos. “O trabalho sério e o sucesso da edição anterior conseguiram abrir portas até então desconfiadas da competência da Edufal em realizar o maior e mais importante evento literário do estado”.

Em 2007, além do patrocínio master do governo do Estado, vieram recursos também da Petrobras, Braskem, Correios, Banco Santander, Banco do Nordeste, Ceal, Eletrobrás, Ministério da Cultura e Ministério de Minas e Energia. A lista de apoiadores e parceiros também aumentou: prefeitura de Maceió, Sesc, Sebrae, Fapeal, Hotel Ponta Verde, Cesmac, Grupo Toledo, Instituto da Visão, Sococo e Oi Telecomunicações.

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8, 18 e 118

O reforço da corrente humana e financeira da III Bienal Internacional do Livro de Alagoas conseguiu garantir vários recordes, tendo o número 8 como principal indicador. Foram 18 oficinas, 118 estandes e 18 mil títulos à disposição do público, que foi estimado em cerca de 108 mil pessoas nos 10 dias do evento. Estima-se que foi gerado cerca de R$ 1,8 milhão em vendas.

O número 8, na numerologia, é frequentemente associado à prosperidade, poder, realização e autoridade. É um número que representa a capacidade de manifestar desejos e alcançar sucesso material, mas também a responsabilidade e o equilíbrio entre o material e o espiritual. Além disso, o 8 pode simbolizar a superação de desafios e a vitória sobre obstáculos. É um símbolo de responsabilidade, maturidade, progresso e ordem cósmica.

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Outros números também representaram boas notícias. Foram 300 editoras presentes, entre universitárias e comerciais. O número de visitas escolares surpreendeu até os mais otimistas, com a participação de 36.196 alunos, segundo relatório da Edufal, que também contabilizou 210 lançamentos, sendo 55 da própria editora da Ufal.

“Na época, foi o maior evento cultural do Estado, com foco no fomento para a importância da leitura na formação crítica do cidadão alagoano”, lembra Ana Dayse Dorea, que ocupou a principal cadeira da Reitoria da Ufal de 2004 a 2011, e responsável por quatro edições da bienal.

Segundo ela, em sua gestão a Edufal tinha a obrigação de publicar e lançar o maior número possível de livros a cada bienal, com preço máximo de R$ 30,00. “No Brasil o livro é ainda muito caro. Deveria ter apenas um valor simbólico para cobrir os custos, principalmente a literatura infanto-juvenil, responsável pela formação dos futuros leitores do país”.

Nesse sentido, a bienal de 2007 levou obras de 85 autores alagoanos, com várias sessões de autógrafos e bate-papo entre escritores, escritoras e o público numa intimidade criativa que só um evento literário pode proporcionar. Era possível, por exemplo, em diversos dias e horários encontrar a escritora carioca Lêda Maya sentada no chão dos corredores do Centro Cultural contando histórias dos seus livros rodeada por crianças.

“Além de aprendizagem, o livro também deve ser um meio de prazer, de encantamento, de felicidade. Que bom que a Bienal de Alagoas também abriu espaço para o livro enquanto entretenimento”, disse Maya, que é especializada em contação de história e percorre o país ministrando oficinas.

Atrevida e expansiva, a terceira bienal também já se mostrou inclusiva com o lançamento de seis livros em braille: "A filosofia do romantismo", de Arthur Bispo dos Santos; "Grande baú, a infância", de Arriete Vilela; "Memórias e ciências sociais", de Alice Anabuki Mancherel; "O negro e a construção do carnaval no nordeste", de autoria de Luiz Sávio de Almeida, Otávio Cabral e Zezito Araújo; "O silêncio da alma", de Leonardo Pimentel Santana; e "Trabalho, educação e qualificação profissional", de Laura Cristina Vieira Pizzi.

A Edufal foi a primeira editora universitária no país a desenvolver um projeto de publicação de livros em braille para atender à um público leitor específico, que apesar da deficiência visual, busca o acesso à literatura de qualidade.

Segundo Maluf, “o apoio de patrocinadores com a sensibilidade de compreender a importância de um projeto como este, no âmbito da educação inclusiva, foi decisivo para conseguirmos realizá-lo”.

Para dar esse importante passo social, a Edufal fechou parceria com a Fundação Dorina Nowill para Cegos, que montou um estande na bienal alagoana. A organização é focada no acompanhamento de pessoas com deficiência visual e se prepara para a celebração de seus 80 anos, em 2026.

Em 2024, mais de 266 mil páginas em braille foram produzidas, superando as 250 mil do ano anterior. A gráfica da instituição imprimiu 7 milhões de páginas e, na área de audiodescrição, a produção de áudio cresceu com 299 projetos e mais de 35 mil páginas adaptadas.

Por dentro do livro

Com o espaço novo garantido, a direção da Edufal decidiu colocar em prática em Alagoas as ideias inspiradas nas andanças de Maluf pelas bienais de São Paulo e Rio de Janeiro. Por lá, percebeu que os eventos investiam cada vez mais em atrações de lazer que enchiam os olhos não só de crianças e adolescentes, mas também do público adulto.

Grandes estruturas lúdicas e interativas eram essenciais para promover a interação entre o público e os livros, fazendo da bienal não apenas um lugar de compra com preços atrativos, mas espaço de experiências de aprendizado em múltiplas linguagens.

A de maior sucesso em 2007 foi o grande túnel em formato de livro. Durante a travessia, o público se deparava com paradas para ouvir e ver partes das histórias encenadas por grupos teatrais de Maceió. A experiência marcou muitas crianças, como a Ana Paula, que à época tinha sete anos. Hoje, com 25, ainda recorda da emoção de entrar num livro e encontrar os personagens contando as próprias histórias.

“É impossível esquecer. Foi surpreendente, mágico, encantador. Lembro de pedir a minha mãe para voltar várias vezes. E cada vez que ia comprava um novo livro e me apaixonei pela leitura. Tenho certeza que aquela experiência impactou muitas crianças e revelou as possibilidades infinitas da leitura”, diz a agora pedagoga Ana Paula, com especialização em estratégias de aprendizagem infantil. “Aquele túnel em 2007 me levou ao caminho da universidade e da minha profissão. Não é possível dimensionar o impacto positivo de uma bienal para uma cidade. É algo transformado”.

No quesito 10 dias de programação, a III Bienal Internacional do Livro foi imbatível até então. O patrono foi o professor Manoel Correia de Andrade (in memoriam), da Cátedra de Gilberto Freire. Historiador e geógrafo pernambucano, ele escreveu mais de 100 livros. Do Rio de Janeiro, o cartunista e chargista Paulo Caruso (1949 – 2023) passou por Maceió para lançar seus livros e falar sobre charge e humor.

O jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira Letras, Carlos Heitor Cony (19286-2018) também participou da bienal com a palestra sobre o desafio da comunicação nos tempos contemporâneos. Ele aproveitou para autografar livros e conversar com leitores. “Alagoas é uma terra intrigante. O protagonista do meu romance ‘O ventre’ tem uma passagem por Maceió. Gosto muito de estar aqui”, disse, durante a palestra.

Outro nome de peso da literatura brasileira a marcar presença foi o também jornalista, escritor e imortal da ABL, Zeunir Ventura, que atualmente está com 94 anos e, à época, falou sobre as histórias dos seus 50 anos de prática jornalística.

Psicanalista, educador, teólogo e escritor, Rubem Alves (1933 - 2014) também lançou e autografou livros, além de conversar com o público sobre a “Educação dos Sentidos”. Aconteceu, ainda, a palestra “Jornalismo e Literatura”, do jornalista e escritor Luiz Gutemberg, nascido em Maceió e radicado em Brasília. Aos 88 anos, ele foi um dos mais importantes jornalistas na cobertura dos fatos da capital do país, com destaque no exercício da profissão na Revista Veja e no JB (Jornal do Brasil).

Escritores, pensadores e pesquisadores sociais alagoanos ofereceram diversos momentos de reflexão em seminários e mesas-redondas, além de lançamentos. Foi lançado, por exemplo, “Dicionário Mulheres de Alagoas ontem e hoje”, organizado por Enaura Quixabeira Rosa e Silva e Edilma Acioli Bomfim.

O seminário sobre o índio em Alagoas reuniu na mesma mesa Luiz Sávio Almeida, Maria Ester Ferreira da Silva, Mônica Lepri, Jorge Luíz Gonzaga Vieira, Amaro Hélio Leite da Silva, Aldemir Barros da Silva Júnior e Gilberto Geraldo Ferreira.

O tema “Aspectos da vida cultural na Maceió dos anos 30” foi abordado por Luitgarde Cavalcanti Barros, Bruno César Cavalcanti, Simone Cavalcante, Rachel Rocha de Almeida Barros e Arrisete Costa.

“Com espaço apropriado para montar diversos eventos acadêmicos simultâneos em salas temáticas, a III Bienal Internacional do Livro de Alagoas também se confirmou como espaço para pesquisadores divulgarem suas produções, levantar questões importantes para reflexão e, principalmente, se tornar referência para o encontro de pensadores de todo país, e até de outras nacionalidades”, reafirma Sheila Maluf, que manteve e reforçou essa característica nas bienais de 2009 e 2011 sob sua gestão na Edufal.

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2009

a bienal que garantiu leitura para todos

2009

Roberto Amorim

Aos 77 anos, dona Maria José Oliveira frequenta as bienais de Alagoas desde 2009, quando, ao lado do marido Sebastião, entrou pela primeira vez no Centro Cultural e de Exposições de Maceió e se deparou com milhares de livros.

O casal fez parte das caravanas de idosos da modalidade de ensino Educação para Jovens e Adultos (EJA) levados, no período noturno, à IV Bienal Internacional do Livro de Alagoas, realizada de 30 de outubro a 08 de novembro de 2009.

“A visão do Sebastião tá muito ruim e agora sou eu quem lê os livros e ele escuta. Desde aquela época não paramos mais de ler e visitar a bienal para comprar livro barato e bom. Agora vai a família toda: minhas filhas e um monte de neto. Todos gostam de ler e aprenderam cedo”, conta a aposentada, nascida e criada no município de Teotônio Vilela, que foi babá aos 12 anos e empregada doméstica dos 13 aos 58. “Não tinha tempo nem oportunidade de estudar. Só aprendi a ler e escrever depois que parei de trabalhar”.

A experiência dela com a montanha de livros à disposição na bienal foi multiplicada por mais de 40 mil - número de estudantes das redes pública e privada do Estado contabilizado pela organização do maior evento literário do estado.

Com o tema “Leitura para Todos”, as ações inclusivas foram expandidas em relação a bienal de 2007, que ficou marcada pelo lançamento da Edufal de livros em braille. Foram realizadas 14 oficinas com estratégias específicas que acolheram pessoas com deficiência visual, auditiva e crianças com síndrome de Down. Uma delas, executada pelas jornalistas e escritoras Cláudia Lins e Simone Cavalcante, ensinava como produzir audiolivro para crianças e adolescentes.

“Uma experiência mágica, inesquecível e que me fez ter certeza de colocar o jornalismo em segundo plano e investir na carreira de escritora e editora de livros infanto-juvenis”, afirma Cláudia Lins, que montou seu próprio negócio, a Mundo Leitura Editora, com atuação nacional e responsável pela publicação de mais de 30 autores e dezenas de títulos.

A manicure Albertina Fonseca também lembra da IV Bienal Internacional do Livro de Alagoas com lágrimas nos olhos e conta, com a voz embargada, a emoção de ver o filho portador da síndrome de Down ser respeitado e acolhido em um evento público e tão importante.

“Fui ainda receosa, pois sempre precisei brigar para exigir os direitos do meu filho. Mas quando cheguei lá tudo mudou. Parecia que estava em outro mundo. O ambiente e as pessoas foram muito acolhedores. Ele participou de diversas atividades e eu aprendi várias técnicas para intensificar os processos educativos na interação com o meu filho. Foi fantástico e inesquecível. Ir àquela bienal renovou minhas forças para cobrar por uma sociedade mais justa e igualitária”, diz Albertina que, desde então espera ansiosa cada nova edição da bienal.

Entre as oficinas, as mais disputadas foram “Contos de Fada na Construção do Saber”, para pessoas com deficiência intelectual e múltiplas; “Objetos de Aprendizagem: uma nova ferramenta para a sala de aula”; “Recursos visuais na contação de histórias” e as oficinas de noções básicas de braille e libras.

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Maior livro do mundo

Numa linha crescente desde 1998, os números da bienal do livro de 2009 em chão alagoano comprovaram a adesão do público, das editoras, livrarias, pensadores e escritores de várias partes do Brasil que incluíram Alagoas na rota das suas andanças e negócios. A soma chegou a 85 palestras, 10 eventos e 17 mesas-redondas, além de performances e espetáculos com contadores de histórias.

Desta vez, os mais de 5.500 metros quadrados do pavilhão de feira do Centro Cultural e de Exposições foram ocupados por mais de 300 editoras (universitárias e comerciais), espalhadas em 130 estandes e mais de 20 mil livros expostos. Entre eles, o maior livro do mundo, uma edição de 300 kg do clássico “O Pequeno Príncipe” surpreendeu os visitantes.

A edição especial da editora Ediouro tinha sido exposta em 2007 na Bienal do Rio de Janeiro. O livro media 3 metros de altura por 1,54 a 1,64 metros de largura. A famosa história escrita por Antoine de Saint-Exupéry é contada em 128 páginas gigantes, que totalizam 300 quilos e consumiram 450 m2 de papel. Em Alagoas uma equipe manuseava as gigantes páginas para os interessados. Já naquela época, o maior livro do mundo se transformou no espaço instagramável mais fotografado do evento.

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A então estudante do ensino fundamental, Andira Miranda, de 11 anos de idade e que já cultivava o hábito da leitura, disse que nunca imaginou existir um livro tão grande. Conheço a história, inclusive em filme, mas nunca imaginei que um dia pudesse vê-la num livro tão grande e aqui em Maceió. Para mim é uma grande surpresa ver ‘O Pequeno Príncipe’ como o maior livro do mundo”

O livro "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry, tem um sucesso mundial notável devido à sua mensagem atemporal e universal, que aborda temas como amor, amizade e o sentido da vida. A obra é um clássico da literatura, com mais de 145 milhões de cópias vendidas e traduções para mais de 250 idiomas e dialetos.

Seu sucesso se estende por diversas gerações, cativando leitores de todas as idades, o que contribui para sua longevidade e impacto cultural contínuo. Também se transformou em filme, história em quadrinhos e montagens teatrais.

O professor de Literatura de escolas públicas, Fritas Júnior, aprovou a iniciativa da organização da bienal em trazer para Maceió a edição gigante do ‘O Pequeno Príncipe’. “É uma obra essencial para os estudantes que estão iniciando os estudos literários, pois consegue, através da linguagem simples, metáforas e ilustrações, abordar temas da alma humana e nos fazer refletir sobre nossas ações. Ainda lembro das caras de espanto e encantamento dos meus alunos quando se depararam com um livro de dois metros de altura”.

Depois de se deparar com o maior livro do mundo, os estudantes fizeram longas filas para embarcar no Expresso do Saber, atração montada pelo Instituto Arnon de Mello. Era um ônibus adaptado, climatizado, com acervo de mais de 1.500 livros.

Sempre lotado, o ônibus se tornou uma biblioteca volante que teve como objetivo levar o livro e os meios de leitura para todo o Estado. Além de diferentes títulos, o espaço oferecia estrutura para outras atividades como desenho, pintura e contação de histórias.

“A terceira bienal sob minha gestão na Edufal privilegiou ainda mais as atrações para as 200 escolas que confirmaram a participação. Foram mais de 40 mil estudantes em busca de novidades e encantamento. E não poderíamos decepcioná-los, sob o risco de perder a oportunidade formar novos leitores”, diz Sheila Maluf, com memória invejável para lembrar dos detalhes das ações realizadas há mais de uma década.

Para além da literatura impressa em livros, a IV Bienal Internacional do Livro ofereceu, ao público de todas as idades espetáculos teatrais e performances artísticas. Tudo gratuito, como a montagem “A Terra de Lêdo Ivo”, do Grupo Teatral das Alagoas (ATA), assinada por Ronaldo de Andrade e Homero Cavalcante; “O Rei que ficou cego”, do grupo Os Tapetes Contadores de Histórias (RJ); e o espetáculo “Contos para alegrar o coração”, grupo Morandubetá, também do Rio de Janeiro.

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Salas e praça de autógrafos

A bienal do livro de 2009 também ampliou os espaços reservados para discussões acadêmicas, apresentação de trabalhos científicos, palestras, debates, mesas redondas e oficinas literárias e de criação. Foram cinco salas, as maiores com 180 lugares e um auditório com capacidade para 500 pessoas, além da praça de autógrafos, que possibilitou a interação entre autores independentes e o público visitante. Todas com atrações manhã, tarde e noite.

Na programação científica da bienal Maceió sediou, por exemplo, o Fórum Ibero-Americano de Editoras Universitárias, com as presenças internacionais de Mário Castillo Mendéz (EULAC), Richard Uribe (CERLALC), Guillermina Araiza (Universidad de Colima/México) e Juan Felipe Córdoba Restrepo (EULAC/ASEUC); o V Encontro Estadual do PROLER; III Encontro de Gestores de Bibliotecas Públicas; II Fórum do Plano Estadual do Livro e da Leitura; II Seminário Nacional de Serviço Social; e o II Colóquio Internacional Brasil x Áfricas: Artes, Culturas e Literaturas, com a presença de representantes de Cabo Verde, Moçambique, Angola e Guiné Bissau.

Na segunda edição com status de internacional, a bienal conseguiu reunir em Alagoas a literatura e a cultura de dez países: México, Peru, Costa Rica, Colômbia, Portugal, França, Angola, Moçambique, Cabo Verde e Guiné Bissau. Fizeram palestras, lançaram livros e conversaram com leitores os escritores Ignacy Sachs (França), Ondjaki (Angola) e Juan Felipe Córdoba Restrepo (Colômbia).

O país homenageado foi a França e o evento fez parte das comemorações do Ano da França no Brasil. Por isso, a Edufal lançou três livros franceses com o selo da editora: “Sociologia das Relações Internacionais”, de Guillaume Devin (traduzido por Milani, MF Durand), “Transatlantique”, de François Laplantine (traduzido por Rachel Rocha e Bruno César), e “A mesa, o livro e os espíritos”, de Marion Aubrée e François Laplantine.

O patrono da IV Bienal Internacional do Livro de Alagoas foi o jornalista, pesquisador, professor e escritor alagoano José Marques de Melo (1943 – 2018), que proferiu a palestra “Gêneros e formatos jornalísticos”, nome também no livro mais recente na época e fruto do longo período de pesquisas científicas sobre a área do saber do Jornalismo. Ele foi o primeiro doutor em jornalismo titulado por uma universidade brasileira e publicou dezenas de livros sobre os princípios do jornalismo e da comunicação social.

O educador Celso Antunes também marcou presença com a palestra “Novas maneiras de ensinar, novas formas de aprender”. Ele é membro consultor da Associação Internacional pelos Direitos da Criança Brincar, reconhecido pela UNESCO. Em seguida foi a vez do professor José Carlos Libâneo (GO) compartilhar seu estudo intitulado “ESCOLA: educar para o pensar, para o transformar, para o compartilhar”.

Ainda nas discussões sobre processos de educação, o educador e psicanalista Rubem Alves (1933 – 2014) retornou as bienais de Alagoas com suas “Conversas sobre Educação”. No campo da literatura, a bienal recebeu o crítico, contista e romancista Ignácio de Loyola Brandão. Ele é dono de vasta produção literária, tendo sido traduzido para diversos idiomas. Recebeu, entre outros prêmios, o Jabuti em cinco ocasiões e o Machado de Assis pelo conjunto da obra em 2016.

A noite de encerramento da bienal, no dia 08 de novembro de 2009, ficou a cargo da atriz, dramaturga e escritora Maitê Proença, com a palestra “Uma Vida Inventada”, título do segundo livro lançado um ano antes. Ela falou do processo de construção da obra, que mistura literatura e vida, verdade e imaginação, numa linguagem extremamente pessoal, às vezes lírica, às vezes dramática. “Os aprendizados numa bienal marcam vidas para sempre”.

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2011

a bienal das redes sociais, rádio e TV

2011

Roberto Amorim

De olho nas transformações sociais provocadas pelas tecnologias da informação e comunicação do século XXI, a V Bienal Internacional do Livro de Alagoas decidiu que tinha chegado a hora de mergulhar nas possibilidades de expansão do alcance das suas ações por meio das redes sociais digitais.

A missão era clara e tinha três etapas: 1) dizer ao máximo possível de pessoas as inúmeras atrações literárias, culturais e acadêmicas durante os 10 dias do maior evento literário do estado, acontecido de 21 a 30 de outubro de 2011, no Centro Cultural e de Exposições de Maceió, em Jaraguá; 2) facilitar as inscrições nas palestras, seminários e oficinas; 3) interagir com o público ouvindo críticas, elogios e sugestões.

Na edição anterior, em 2009, a aproximação entre a Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal) e as redes sociais tinha sido tímida e em caráter experimental através do Orkut. Mas, dois anos depois, o salto foi impressionante.

Através de uma página específica do Facebook, diversas atividades da bienal foram transmitidas ao vivo para os alagoanos que não puderam comparecer ao evento, assim como para quem mora fora do estado e se interessou por assuntos debatidos em dezenas de palestras.

No Twitter (desde 2023, a plataforma passou a ser chamada de X) eram transmitidas informações sobre os destaques da programação de cada dia, transmissão de vídeo e interação com os internautas, que opinavam sobre quais oficinas e palestras gostariam de assistir.

A proposta de incluir as redes sociais digitais como mais um ele de interlocução entre a bienal e seu público foi do então estudantes do curso de Relações Públicas da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Jonas Sutareli, à época, estagiário bolsista da Edufal.

“No planejamento se falava muito sobre cobertura pra TV, divulgação em outdoors e senti que faltava a presença destas redes e lancei a ideia, que foi prontamente aceita pela coordenação da assessoria de imprensa do evento. Foi desafiador, mas também muito recompensador”, relembra.

De acordo com ele, um dos resultados mais positivos dessa ação tecnológica de comunicação foi a interação com os internautas, que aderiram ao convite da Edufal em participar, também, de forma online da bienal. “A gente ficou monitorando tudo que as pessoas estavam falando na rede sobre a bienal e respondíamos o mais rápido possível. A ideia foi realmente criar uma interação do evento com este público”.

Jonas recorda que nos dias 22 e 23 de outubro de 2011, a V Bienal Internacional do Livro de Alagoas estava entre os assuntos mais comentados do twitter em Alagoas de acordo com o Trends Map Maceió (http://trendsmap.com/local/br/maceio), que monitora os temas mais comentados na rede social. A hashtag #VBienalAL foi utilizada pelos twitteiros para falar sobre a bienal.

Ana Beatriz lembra como ficou surpresa ao encontrar a bienal nas redes sociais. Ela morava no município de Estrela Nova, distante 142 quilômetros de Maceió, e não poderia participar presencialmente de todas as atividades que gostaria. Com a tecnologia, tudo mudou.

“Em 2011, ainda consegui ir à bienal duas vezes. Mas foi possível acompanhar palestras e oficinas transmitidas ao vivo, estabelecendo um canal direto com o evento. Parabenizei, fiz algumas críticas e sugestões. Participei ativamente da bienal via computador. Outra novidade foi a possibilidade de interagir com os palestrantes pelo perfil deles”, conta a Beatriz, que na época estava se preparando para o vestibular. “Depois fui aprovada na Ufal e vim morar em Maceió, mas continuei assídua nas bienais, hora presencial, ora online”.

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Imagens e vozes

E não é só. Para o público mais tradicional, ainda não acostumado com as redes sociais digitais, a V Bienal Internacional do Livro de Alagoas fechou parceria com o Instituto Zumbi dos Palmares (IZP) para levar sua extensa programação através do sistema público de comunicação do estado, responsável pela gestão da TV Educativa, Espaço Cultural Linda Mascarenhas e as rádios Educativa FM e Difusora. A ação também foi inédita e aconteceu graças ao apoio da secretaria estadual da Comunicação.

O IZP ocupou um grande estande onde foram montados estúdios de rádio e de TV, além de espaço institucional para divulgação de ações, projetos e programas exibidos nas emissoras públicas e educativas de Alagoas. Através de vídeos institucionais e exposição fotográfica com curadoria do artista Persivaldo Figueirôa, os transeuntes da bienal interessados em produção de conteúdo midiático puderam acompanhar os bastidores da produção dos programas, momentos históricos das emissoras e das apresentações artísticas no Linda Mascarenhas.

Estudantes dos cursos de Jornalismo, Relações Públicas, Marketing e Publicidade de várias instituições de ensino superior de Maceió visitaram o espaço e puderam conversar com produtores, repórteres e apresentadores de programas de rádio e televisão. Um deles foi o publicitário Hernandes Paulino, que, em 2011, estava no primeiro período de Jornalismo da Ufal e ansioso para começar a entender as engrenagens dos veículos de comunicação.

Ela conta que voltou ao estande do IZP várias vezes fascinado pela correria e empenho dos jornalistas para produzir conteúdo gravado e fazer transmissões ao vivo. “Foi impactante para um estudante que estava iniciando o curso ver de perto como era produzir notícias e fazer entrevistas no meio de evento, com tanta gente passando e acontecendo tantas atividades ao mesmo tempo. Naquele momento tive a certeza que era o que queria para minha vida”.

Durante os 10 dias de evento, as rádios Difusora AM e Educativa FM montaram programação especial para levar aos telespectadores e ouvintes o maior número possível de informações para a robusta programação da bienal.

Os programas “Educativa em Revista” (FM) e “Espaço Livre” (AM) transmitiram os destaques da programação diária. A partir das 10 horas repórteres das duas emissoras entravam ao vivo do Centro Cultura e de Exposição para falar com visitantes, palestrantes e oficineiros. A tarde e à noite a dinâmica continuavam tendo a bienal como pauta obrigatória em todos os programas que seguiam durante a programação das emissoras.

E tem mais. Foi criado o programa especial “IZP na Bienal”, transmitido diariamente direto do estúdio da Educativa FM montado no maior evento literário de Alagoas. Já a TV Educativa (TVE) esteve presente na bienal com gravações para os programas “Vida de Artista”, “Conhecer” e “Pauta Especial”, além de flashes diários com a jornalista Gal Monteiro.

“Apoiar e estar presente em eventos como a bienal está no cerne da missão do IZP, enquanto complexo de comunicação pública que deve estar a serviço da cultura, da educação, da informação científica que eleve e contribua para a formação da nossa população, da nossa juventude”, afirmou o jornalista Marcelo Sandes, então diretor-presidente do IZP.

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Um gráfico crescente

A última bienal da gestão de dois mandatos da reitora Ana Dayse (2004 – 2011) registrou números impressionantes que mantiveram a tendência de expansão da bienal de Alagoas. Foram contabilizados cerca de 200 mil pessoas, 500 editoras, 22 mil títulos, 315 lançamentos, 102 palestras, 60 oficinas e 22 mesas redondas. Além seminários, simpósios, fórum, performances artísticas, espetáculos e de horas e horas de contação de histórias.

A internacionalização também foi reforçada, com a homenagem à Itália, além da participação do México, Peru, Portugal, França e Colômbia. As editoras universitárias da América Latina e Caribe montaram uma exposição nunca antes vista em solo alagoano.

“A iniciativa reitera o interesse que o povo brasileiro guarda pela cultura da Itália. E abre novos caminhos para avançar em setores tais como a inovação científica, o intercâmbio sociocultural, o intercâmbio educacional, assim como os diversos projetos econômicos de mútuo interesse”, disse o então Cônsul Italiano para o Nordeste do Brasil, Francesco Piccione, durante a solenidade de abertura da V Bienal Internacional do Livro de Alagoas, que também fazia parte das celebrações de 50 anos da Universidade Federal de Alagoas.

Na ocasião, o patrono da quinta edição, jornalista, escritor e poeta alagoano Audálio Dantas (1929 – 2018), falou sobre a satisfação em voltar à sua terra natal para ser homenageado e ressaltou que a bienal faz parte do patrimônio cultural de Alagoas. “O Estado tem o dever de apoiar esta iniciativa. O estado que consegue realizar um evento assim tem a obrigação de manter viva esta realização”, enfatizou.

A lista de atrações nacionais mesclou nomes que retornaram à bienal e participações inéditas. De volta a Maceió estiveram José Marques de Melo, Jessier Quirino, Lêdo Ivo e Rubem Alves, convocados pela Edufal atendendo aos pedidos do público alagoano devido ao sucesso das participações anteriores.

Um dos estreantes que lotou o auditório de 500 pessoas foi o professor Pasquale, com a palestra “Nossa Língua Portuguesa”. Ele se tornou conhecido dos brasileiros a partir de 1994 ao levar a interpretação de textos e dúvidas gramaticais à televisão e rádio, utilizando exemplos de textos jornalísticos, poemas e músicas.

A mesa redonda “Jornalismo Literário” reuniu os jornalistas e escritores Audálio Danas, Fernando Morais (autor de “Chatô”, “Olga” e “A Ilha”) e Ricardo Kotscho, um dos mais atuantes jornalistas brasileiros, com destaques para as reportagens que denunciavam o desrespeito dos direitos dos cidadãos durante o regime militar brasileiro (1964 -1985).

A Doutrina dos Espíritos, codificada pelo cientista francês Allan Kardec, também lotou as salas de palestras da V Bienal, com suas palestras inéditas em Alagoas. A primeira foi “A Mesa, o Livro e os Espíritos”, da professora e antropóloga francesa Marion Aubrée.

Ela é doutora em Etnologia, Antropologia e Ciência das Religiões pela Universidade de Paris VII e pesquisadora integrante do Centro de Pesquisas sobre o Brasil Contemporâneo da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, de Paris (CRBC/EHESS). Hoje, aos 83 anos, continua estudando as diversas formas de religião, tendo o Brasil como palco de grande parte de suas pesquisas.

Já o jornalista André Trigueiro abordou o tema “Espiritismo e Ecologia”. Professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, é autor de obras ligadas à gestão ambiental, entre elas, "Meio Ambiente no século XXI", e “Espiritismo e Ecologia”.

“Foi um momento muito especial para ouvir e trocarmos experiências com estudiosos da doutrina espírita. A bienal de Alagoas sempre na vanguarda em discussões que não encerram apenas no fazer literatura, mas como ela, a literatura, é parte integrante de vários aspectos do ser humano”, afirma Albânia de Jesus, professora de língua portuguesa, estudiosa e seguidora dos ensinamentos de Allan Kardec.

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2013

a celebração da literatura alagoana

2013

Roberto Amorim

Os 30 anos de vida e o admirável trabalho de resistência da Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal) foram o ponto de partida para a construção da VI Bienal Internacional do Livro de Alagoas, realizada de 25 de outubro a 03 de novembro de 2013, no Centro Cultural e de Exposições de Maceió, em Jaraguá. O lugar se transformou na casa oficinal do maior evento literário do estado desde a terceira edição, em 2007.

Não à toa, pela primeira vez não houve um único patrono. As homenagens foram para o talento e a pluralidade da literatura produzida em chão alagoano. “Nossos patronos são os escritores alagoanos, vistos em suas singularidades. Será uma oportunidade para reconhecermos a produção local, pois a bienal tem o intuito de valorizar o trabalho dos autores de Alagoas”, afirmou a então diretora da Edufal, Stela Lameiras, durante o lançamento da bienal de 2013.

Na prática, escritoras e escritores alagoanos ocuparam a praça de autógrafos, lançaram livros, ministraram oficinas, proferiram palestras e discutiram a riqueza da cultura local em diversas mesas-redondas.

Entre os participantes marcaram presença Arriete Vilela, Susana Souto, Nilton Resende, Simone Cavalcante, Vera Romariz, Cláudia Lins, Luitgarde Barros, Gilda Vilela, José Marques de Melo, Jorge Calheiros, Tainan Costa e Douglas Apratto Tenório, além de diversos outros pesquisadores alagoanos, que lançaram os resultados das suas investigações acadêmicas no formato de livro.

As escritoras Simone Cavalcante e Cláudia Lins, acompanhadas do ilustrador Pedro Lucena, chamaram a atenção do público num bate-papo sobre o processo criativo do livro “7 histórias de amor e encantamento”. O assunto interessou a educadores, autores, ilustradores e leitores, muitos leitores.

Um deles foi Sérgio Pietro, que, em 2013, começava a dar os primeiros passos como escritor, mas ainda com muita insegurança. Uma bienal ressaltando a qualidade literária e o talento dos escritores alagoanos o encorajou a continuar no caminho das letras. Hoje, 12 anos depois, ele é professor de literatura brasileira, com especialização nos estudos da poesia e prosa alagoana, e dois romances prontos que garante lançar em breve.

Além da conversa com as escritoras Cláudia Lins e Simone Cavalcante, ele destaca a mesa-redonda sobre produções poéticas locais, composta por Tainan Costa, Arriete Vilela, Fernando Fiúza, Vera Romariz e o sergipano Jeová Santana, marcam profundamente suas escolhas profissionais e deram uma injeção de autoestima que não o fizeram desistir.

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“Já tinha participado de edições anteriores da bienal, mas a de 2013 deixou cicatrizes positivos que carrego até hoje. Ali, percebei a força dos nossos poetas, romancistas, críticos literários, pesquisadores. Foi um momento muito delicado da minha vida e a bienal me mostrou o caminho que deveria seguir”, conta Pietro, com orgulho de transmitir aos dois filhos o encantamento da literatura alagoana. “Os livros da nossa terra têm prioridade aqui em casa. Os primeiros livros que meus filhos leram foram de nossos autores”.

Graciliano e Lêdo

Como não poderia deixar de ser, numa bienal do livro celebrando os escritos literários alagoanos, Graciliano Ramos também foi reverenciado. A obra do romancista, cronista, contista, jornalista e político deu base a um ciclo de palestras com o jornalista e professor Dênis Moraes e Thiago Mio Salla, biógrafo, organizador dos escritos inéditos e autor de diversos livros sobre a influência do contexto sócio, político e cultural na produção do Velho Graça.

O apelido, presente no título de uma biografia de Dênis de Moraes, reflete a admiração e a simpatia que o autor inspirava, sendo visto como um "camarada, fraterno, admirável". Para o autor, remontar o quebra-cabeça de Graciliano assemelhou-se ao ofício de artesão, já que os fragmentos do passado precisavam ser pacientemente reunidos e dispostos com a máxima coerência possível, a despeito da pluralidade de suas significações.

“Nas tensões entre o homem, a atmosfera social e a criação literária recolhi pistas que me levassem às motivações familiares, afetivas, estéticas, ideológicas e políticas presentes em sua intervenção na realidade concreta", disse Moraes, durante as conversas na bienal de Alagoas.

“O Prof. Dr. Dênis Moraes, da Universidade Federal Fluminense (UFF), faleceu em fevereiro de 2025. Seus livros mais recentes foram Os mais recentes foram “A esquerda e o golpe de 1964” e “Sartre e a imprensa”.

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E tem mais. Numa ação inédita e comemorativa aos seus 50 anos de fundação, o Arquivo Público de Alagoas montou um estande com exposição de documentos originais e históricos, entre eles os famosos relatórios de Graciliano Ramos, da época em que foi prefeito do município de Palmeira dos Índios (1927-1930).

Esses documentos, que narram com detalhes as condições da prefeitura e os problemas do município, foram publicados originalmente no Diário Oficial do Estado de Alagoas e têm sido reeditados por diversas editoras, sendo considerados por muitos como um documento único que mescla gestão pública e literatura. O estande ainda ofereceu aos visitantes painéis e exposições de jornais dos tempos do Império brasileiro.

O poeta alagoano Lêdo Ivo também esteve presente na VI Bienal Internacional do Livro através do documentário “Imagem peninsular de Lêdo Ivo”, dirigido por Werner Salles. Rodado em Alagoas, Pernambuco e Rio de Janeiro, o filme não-ficcional alterna depoimentos críticos e afetivos sobre a vida e obra do literato com a transposição de alguns de seus poemas para a tela.

A narração dos textos ficou a cargo do ator Othon Bastos. Um dos destaques é a trilha sonora original, composta por músicos alagoanos a partir de uma minuciosa pesquisa sobre ritmos locais, aliada a leituras intensivas da obra do poeta, transmitindo o universo do escritor para acordes e linhas melódicas.

Brasileiros e estrangeiros

Para sustentar o título de “Internacional”, a bienal alagoana reforçou os laços lusitanos e fez de Portugal o país homenageado, inclusive com a presença do então cônsul honorário de Portugal em Maceió, Edgard Barbosa.

Entre as atrações internacionais estiveram em Alagoas o sociólogo português Boaventura Santos; o poeta, ensaísta e curador de arte Luís Serguilha (nascido português e radico recifense); Catherine Dumas, atuante política e professora de Língua e Literatura na Universidade da Sorbonne Nouvelle Paris; Rumen Stoyanov, político, engenheiro , físico e economista búlgaro; e Alberto Filipe Araújo, autor e co-autor de numerosos trabalhos, em Portugal e no estrangeiro, dedicados ao tema do Imaginário e Imaginário Educacional.

Na lista de escritores e pensadores brasileiros com obras de alcance nacional, que passam pela bienal de 2013, estão nomes como Affonso Romano de Sant'Anna, Jessier Quirino, Emir Sader, Maitê Proença, Laura Müller, Bia Bedran e Paula Pimenta.

Já Frei Betto, ampliou o sucesso de público da participação na I Bienal do Livro e da Arte de Alagoas, em 1998. Quinze anos depois ele volta a Maceió e lota os 1.251 lugares do Teatro Gustavo Leite, onde falou sobre os grandes conflitos de valores da sociedade pós-moderna que afeta, diretamente a família, a escola, o Estado e a Igreja.

“Enquanto a minha geração tinha como referências pessoas altruístas, como por exemplo, Jesus, Francisco de Assis, Mandela, Che Guevara, as referências da garotada hoje são cantores, artistas da novela, piloto de fórmula um ou jogador de futebol. Podem ser pessoas talentosas, mas o que é que elas estão fazendo pelos outros e para tornar o mundo melhor?”, questionou.

Religioso e um dos mais produtivos pensadores brasileiros, ele é autor de mais de 70 livros, incluindo obras infantis, religiosas, romances, ensaios e livros sobre espiritualidade e política. Já recebeu importantes prêmios literários, como o Prêmio Jabuti em 1982 por "Batismo de Sangue" e o Prêmio Juca Pato em 1985 por "Fidel e a Religião". Seus livros abordam temas como espiritualidade, política, direitos humanos e questões sociais, dialogando com a teologia, a filosofia e o jornalismo.

Em Maceió afirmou, mais uma vez, sua crença na espiritualidade como caminho para o equilíbrio e uma existência feliz num mundo tão conturbado. “Eu não estou falando de religião, estou falando de princípios subjetivos, de ética, de respeito. A família precisa desligar um pouco a TV, desligar um pouco a internet e se ligar mais, interagir mais”.

No cenário brasileiro, a bienal também apostou na pluralidade de manifestações artísticas como a música e a televisão. Dois músicos vieram compartilhar suas impressões e emoções da trajetória artística em confronto com os desafios da realidade social.

O cantor Humberto Gessinger, fundador da banda Engenheiros do Hawaii, também fez uma concorrida sessão de autógrafos (mais de 200 pessoas) no lançamento do segundo livro de crônicas, “Seis segundos de atenção”.

Em seus textos, o cantor, compositor e artista fala sobre o tempo e o processo de criação. “Um tempo que, às vezes, não se quer ter. Um tempo que não se pode controlar. Não é tão fácil quanto parece encontrar um instante mágico, o centro da originalidade, do talento, e manter a conexão com ele”.

Dois dias depois foi a vez do também músico Tico Santa Cruz, líder da banda Detonautas, chegar à bienal de Alagoas trazendo na bagagem o livro “Tesão”. Com direito a autógrafo e bate-papo com o público, ele explicou que o grande segredo dos textos é deixar que os leitores tentem descobrir quais das situações reveladas realmente aconteceram, quais foram as suas fantasias e quais ele deseja que se realizem.

Já a jornalista Lêda Nagle veio comemorar os 40 anos de carreira com o lançamento do livro "Com Certeza: Leda Nagle, melhores momentos". A obra reúne conversas com personalidades como Carlos Drummond de Andrade e Maria Bethânia, feitas no programa Sem Censura, da TV Brasil, que apresentou durante 20 anos, de 1996 a 2016.

Em Maceió, ela elogiou a persistência da Edufal em realizar uma bienal pública e gratuita. “Estou encantada com o fato de uma universidade federal promover a bienal em Alagoas. Acho que o caminho é esse. Eu tenho o maior carinho pelas iniciativas da academia”.

Com o tema “Descobrir nas palavras a magia dos sentidos”, em dez dias, a VI Bienal Internacional do Livro de Alagoas contabilizou 260 mil visitantes – entre eles 80 mil alunos –, 146 estandes, 22 mil títulos, 45 oficinas. A ambientação do Centro Cultural e de Exposições foi assinada pelos arquitetos os arquitetos Lúcio Moura e Luciano Brandão, que criaram o projeto a partir do intrínseco diálogo da cultura brasileira com a portuguesa.

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a bienal das vozes negras de resistência

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Roberto Amorim

No ano em que Maceió completou 200 anos, a VII Bienal Internacional do Livro de Alagoas aproveitou a data comemorativa para lembrar que a cidade foi forjada, também, a partir da força e da cultura dos povos escravizados vindos de diferentes partes do continente africano.

Não à toa, o início do maior evento literário do estado começou em 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, em homenagem à morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo de Palmares, um símbolo de resistência contra a escravidão. A data foi instituída pela Lei nº 12.519/2011, para que a sociedade brasileira reflita sobre a luta e a resistência da população negra contra o racismo e a desigualdade.

No palco do Teatro Gustavo Leite, no Centro Cultural de Exposições de Maceió, a atriz, cantora, poetisa e escritora Elisa Lucinda reverenciou a terra das alagoas, berço de uma das mais importantes lutas contra a escravidão e afirmou a importância de utilizar as linguagens artísticas como forma de resistência e combate contra o racismo e a profunda desigualdade social que marca a sociedade brasileira.

“Através do canto, da literatura, do teatro e da teledramaturgia reafirmo minha militância pela não apenas pela causa negra, mas sim da causa humana; contra todas as formas de opressão, incluindo o consumismo como forma de ‘cárcere privado’”, afirmou para uma plateia que teve o privilégio de vê-la ler trechos dos seus livros, conversar sobre problemas sociais e cantar, cantar muito.

A batalha social de Elisa Lucinda é antiga e enfrentada em diversos fronts. Autora de mais de 20 livros, um dos projetos mais notáveis é o “Versos de Liberdade”, que leva a poesia falada a jovens em cumprimento de medidas socioeducativas, como forma de promover expressão e inclusão social. A Casa Poema também promove cursos de poesia para professores, população LGBTQIA+, quilombolas, entre outros.

Em colaboração com a Organização Internacional do Trabalho, criou o projeto “Palavra de Polícia, Outras Armas”, ensinando poesia falada a agentes de segurança para alinhá-los com princípios de direitos humanos e transformar práticas em relação a gênero e raça.

Em 2009, recebeu o prêmio “Mulher Cidadã Bertha Lutz”, concedido pelo Senao Federal, em reconhecimento à sua atuação como escritora e ativista dos direitos das mulheres.

As falas de resistência da bienal de 2017 também encontrou eco na realização, em Maceió, da 3ª edição do Fórum Mestre Zumba: pensamentos afro-ameríndios, que colocou em debate a Lei 11.645/2008, que, entre outras coisas, estabelece a obrigatoriedade do estudo da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena em estabelecimentos de ensino fundamental e médio.

Na programação, foi exibido um vídeo realizado pelo Fórum. Logo depois o antropólogo e cenotécnico da Escola Técnica de Artes da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Jeamerson dos Santos, proferiu a palestra “José Zumba: Uma vida dedicada a pintar Alagoas”.

Outras palestras abordaram a questão indígena, como a “O dono da terra no 2 de julho e na Educação”, da pesquisadora Nadir Nóbrega. “Com esse tema, me refiro aos indígenas que já habitavam o Brasil na ‘descoberta’ pelos portugueses, liderada por Pedro Álvares Cabral. E a data 2 de julho se refere à Independência da Bahia”, esclareceu a professora.

A crítica cantada

Em 2014 o rapper Gabriel o Pensador foi ver o jogo do Fluminense no Maracanã e levou uma faixa com a mensagem “Morte ao Racismo”. A atitude fez parte da trajetória artística de luta contra o racismo estruturado e as drásticas consequências da desigualdade social no Brasil. A vinda a bienal de Alagoas, garantiu ele, que foi uma excelente oportunidade para ampliar o alcance da sua mensagem antirracista.

“Minha carreira nasce como forma de oposição e desconstrução ativa do racismo e suas formas de opressão, indo além de não ser racista, mas adotar posturas e ações políticas e pedagógicas para combatê-lo”, afirmou o cantor, compositor e escritor.

Ele é autor dos livros infantis "Um Garoto Chamado Rorbeto", "Bagunça", "Gualín", e "Meu Pequeno Rubro-Negro". Há também "Nada D+", uma coautoria com Laura Malin, e a obra autobiográfica "Diário Noturno", que também pode ser considerada relevante para crianças e adolescentes.

“Eu sempre quis afetar, de alguma forma, a vida das pessoas e a música hoje me ajuda nisso. Desde cedo, pretendia mudar o mundo. E a gente também pode fazer isso disseminando gentileza, respeito e amizade em casa, no trabalho e onde for mais”, disse para a plateia alagoana formada por adultos e muitas crianças e adolescentes. “Desde muito cedo senti a necessidade de expressar minhas ideias pela escrita, de uma forma geral, e pela rima, particularmente”.

Espontâneo e à vontade, Gabriel o Pensador conversou, chamou crianças da plateia para contar a história do personagem do seu livro “Um Garoto Chamado Rorberto”, recebeu cartinhas dos fãs, uma caricatura sua e poemas, que tratou de declamar ali mesmo. E ainda dividiu o palco com o rapper alagoano Vítor Pirralho, já conhecido do público alagoano por suas letras contundentes de crítica social.

Quem também hipnotizou o público infantil da sétima edição da bienal alagoana do livro foi o espetáculo “Grandes Pequeninos”, idealizado pelo cantor e compositor Jair Oliveira, que carrega a veia artística herdada do pai, Jair Rodrigues.

O eterno Jairzinho, do grupo Balão Mágico dos anos 80, continua conquistou os fãs mirins com o projeto de um livro/CD criado e produzido por ele e a atriz Tânia Khalill. A apresentação musical teve como base o universo dos bebês e o amor com a família. “Grandes Pequeninos” foi indicado ao Grammy Latino 2009 na categoria Melhor Álbum Infantil.

De acordo com ele, o projeto foi construído a partir do nascimento da sua filha Isabela e se propôs a explorar a infância de forma lúdica e divertida, abordando temas como a formação da consciência infantil, o dia a dia com os bebês e os desafios da paternidade. O projeto rendeu CDs, livros, espetáculos teatrais e vídeos no YouTube, “com o objetivo de promover valores como respeito, amor e acolhimento nas relações familiares”.

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Portais de poesias

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Com o tema "Palavras, sons e imagens: Universos de Sentidos", o evento aconteceu de 20 a 29 de novembro de 2015, no Centro Cultural e de Exposições de Maceió, em Jaraguá, com recorde de público: 300 mil pessoas em dez dias de evento.

Cerca de 900 escolas levaram seus alunos para ter acesso a mais de 30 mil títulos, espalhados em 143 estandes de livrarias e editoras de várias partes do Brasil e de outros países como Peru e México. Só a Edufal lançou 60 novas obras, no espaço de autógrafos Cantinho das Ideias.

Nos relatórios foram registrados, ainda, aproximadamente 100 atividades entre palestras, mesas redondas, seminários, fóruns, contações de histórias e apresentações culturais. Na lista de atrações nacionais figuraram nomes como Mário Sérgio Cortella, Eliana Kefalás, Michel Agier (França), Raul Calane e Silvestre Sechene (Moçambique). Especialmente para o público infantil, Paula Pimenta, Bruna Vieira, Clarice Freire e Pedro Gabriel.

Desta vez, a ambientação do maior evento literário de Alagoas foi concebida pela dupla Inês Amorim (arquiteta) e Agélio Novaes (artista plástico e cenografista). Suas criações convidaram a interação do público através de reconstrução de cenas históricas da cidade e portais de poesia, em celebração aos 200 anos de Maceió.

Outro momento marcante foi a apresentação da Orquestra Sinfônica da Universidade Federal de Alagoas (OSU), num concerto no Teatro Gustavo Leite sob a regência do maestro Nilton Souza.

Preocupado em agradar o eclético público de mais de 1.200 pessoas de todas as idades e preferências musicais, o maestro selecionou repertório variado, com a primeira parte de composições eruditas e a segunda com músicas em homenagem aos 200 anos de Maceió, com participação do CORUFAL – Coro da Universidade Federal de Alagoas e do Coral “Rugas de Ouro”.

O público infantil, mais uma vez, recebeu atenção especial. Nesta edição, o Sesc concentrou sua programação na sala Ipioca, com capacidade para 500 lugares, além de ter participado e apoiado diversas outras atividades e também realizou diversas ações na Unidade Móvel BiblioSesc

Entre as atrações do a exposição “Papel no Varal”, do Instituto Lumeeiro; a performance literária "Memórias de Graça", com Cosme Rogério, Arnaud Borges e direção de Julien Costa. Todos dois da bienal, das 10h às 13h acontecia exibições da mostra de cinema de curtas-metragens com tema infanto-juvenil.

Não faltaram apresentações literomusicais com as do grupo Nó na Garganta, de Maceió, e narração de histórias, com Gelson Bini. Ele é contador de histórias e mediador de leitura de Santa Catarina.

No quesito palestras: "Literatura Infanto-Juvenil", com Simone Cavalcante; "A Narração de Histórias para Adultos e Outras Histórias", com Gelson Bini; "Viver de Escrever", com Rafael Gallo; e “Literatura Fantástica”, com André Vianc; ambos de São Paulo.

Também não faltam conversas múltiplas através de mesas redondas como a “Corpo da Palavra, Palavra do Corpo”, com Verônica Stigger e Angélica Freitas, que vieram do Rio de Janeiro para bater papo sobre a construção do romance e da poesia. Já os escritores alagoanos Arriete Vilela/AL, Nilton Resende/AL e Tazio Zambi/AL abordaram o tema “Dois dedos de prosa e poesia com a Literatura Alagoana”.

Discutir o gênero conto, enquanto gênero literário e novos autores, ficou a cargo de Alexandre Marques, de São Paulo. Destaque também para o “Encontro Intermídia” com Vitor Pirralho (rap), Jorge Calheiros (cordel) e Demis Santana (poesia popular).

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a bienal dos 200 anos de Alagoas

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Roberto Amorim

Até os oito anos de idade, José Felipe Andrade nunca tinha entrado numa sala de cinema, na plateia de um teatro, numa sala de exposições, numa livraria. Morador do bairro Levada, próximo ao Mercado da Produção, e estudante de escola pública, a família sobrevivia do trabalho informal do pai, servente de pedreiro. O sonho dele era ajudar no sustento da casa.

Mas em 2017 tudo mudou. Ele recebeu um vale-compra de R$ 15 reais da prefeitura de Maceió e, junto com a turma da escola, foi investir o dinheiro na XVIII Bienal Internacional do Livro de Alagoas. Voltou para casa com a certeza de que a leitura e os estudos poderiam levá-lo onde quisesse.

Hoje, aos 17 anos, e morando na região metropolitana de Recife, Felipe está no primeiro ano do curso de Odontologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Fico emocionado ao lembrar do impacto que senti quando entrei no salão principal da bienal e me deparei com um universo que nunca imaginei existir. Minha vida mudou a partir daquele dia. Se não fosse a bienal, talvez estivesse ajudando meu pai a carregar cimento e tijolos”.

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Assim como ele, aproximadamente sete mil estudantes da rede municipal de educação de Maceió receberam o vale-livro, uma das marcas da edição de 2017 do maior evento literário em chão alagoano., que aconteceu de 29 de setembro a 8 de outubro no Centro Cultural e de Exposições, bairro de Jaraguá.

“A literatura e o livro são envolventes. O ato da leitura nunca é passivo, sempre é ativo e pode nos libertar. Em tempo de incertezas políticas e retirada de direitos, a bienal é uma demonstração de força de todos que fazem a comunidade universitária”, ressaltou a então reitora da Ufal Valéria Correia, durante a abertura do evento.

A XVIII Bienal Internacional do Livro de Alagoas também foi marcada pelas celebrações dos 200 anos da emancipação política de Alagoas. O bicentenário serviu de eixo-motriz para uma série de atividades, como lançamentos de livros e mesas-redondas sobre questões políticas, sociais, econômicas e culturais do estado, além de apresentações artísticas inspiradas nos dois séculos da separação de Alagoas da capitania de Pernambuco.

Em seu discurso de abertura da extensa programação da oitava bienal, o diretor da Edufal, Osvaldo Maciel, enfatizou o protagonismo da produção científica e artística alagoana, como o debate sobre a conjuntura e o cenário político-social do Estado.

Nesse sentido, foram realizados seminários para se pensar os rumos da educação, das políticas públicas, da formação histórica e cultural de Alagoas, inclusive homenageando três intelectuais da terra: Élcio Verçosa, Luiz Sávio de Almeida e Dirceu Lindoso.

Contabilidade e vivências

O saldo da XVII Bienal Internacional do Livro de Alagoas foi positivo diante da complexidade da conjuntura política, social e econômica enfrentada pelo país em 2017. O Brasil enfrentava uma crise política profunda, com o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016 e o governo de Michel Temer buscando implementar medidas de ajuste e reformas em um contexto de forte polarização política.

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Em 2018, o desemprego continuava elevado, com cerca de 12 milhões de pessoas desocupadas, refletindo os efeitos da recessão e a dificuldade de geração de empregos. Além de severos cortes no orçamento das instituições federais de ensino superior.

Mesmo diante desse cenário desafiador, em 10 dias de funcionamento, a oitava bienal conseguiu ofertar, gratuitamente, aos alagoanos e turistas, 80 atividades entre oficinas, palestras e bate papos com convidados especialistas de diversas áreas do conhecimento; mais de 70 apresentações culturais e cerca de 100 lançamentos de livros. Só o selo da Edufal entregou ao público 77 novas obras.

A organização estimou que mais de 200 mil pessoas passaram pelos 133 estandes. As escolas públicas e privadas enviaram aproximadamente 50 mil estudantes em mais de 600 visitas agendadas. Para dar conta da empreitada artístico-literária, foram envolvidos 100 profissionais só da Ufal, com geração de 400 empregos diretos e indiretos. As vendas ultrapassaram os 50 mil exemplares.

Por trás de tantos números, a bienal contabilizou centenas de experiências emocionantes de descobertas e encontros com a arte e a cultura produzidas em Alagoas. Como a dos cinco socioeducandos com idades entre 15 e 18 anos que tiveram a oportunidade de assistir a apresentações musicais, performances teatrais e entrar em contato com o universo da literatura.

“Foi uma experiência muito boa e quero repetir outras vezes”, disse o adolescente J.L, de 16 anos, que, pela primeira vez se deparou com milhares de livros, assistiu espetáculo teatral e entrou num teatro.

A pedagoga Tayse Roque afirmou que o contato com o livro desperta o interesse pela leitura e faz com que “eles viagem num mundo de conhecimento, além de afastá-los do mundo da violência e de ambientes vulneráveis”.

A professora de biologia, Iraci Cavalcante, lembra bem da alegria da neta Samara durante visita à bienal logo no primeiro dia. “Na época ela tinha oito anos e queria participar de tudo, comprar todos os livros infantis. Ficava pedindo para voltar todo dia, mesmo quando a bienal já tinha acabado. Da li por diante ela não perdeu mais nenhuma bienal. Em 2023, voltamos juntas e foi uma nova aventura prazerosa”, conta a professora que também incluiu a participação no evento literário no cronograma das suas aulas. “Quem estuda comigo já sabe que ir a bienal e participar das atividades faz parte do aprendizado. É uma experiência indispensável para qualquer estudante”.

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Escritores, rádio e designer

Dezenas de pensadores, autores, pesquisadores e visitantes expuseram suas reflexões e impressões na XVIII Bienal Internacional do Livro de Alagoas. Esses dizeres tiveram o alcance amplificado com a inovação da implantação da Rádio Web Bienal, inciativa pioneira e experimental da Assessoria de Comunicação da universidade (Ascom/Ufal), sob o comando das professoras do curso de Jornalismo Mércia Pimentel e Lídia Ramires.

A iniciativa deu tão certo, que a Rádio Web Ufal foi institucionalizada no ano seguinte, em julho 2018, durante a 70ª reunião anual da Sociedade Brasileira pelo Progresso da Ciência (SBPC).

A proposta da rádio é ser mais um veículo da Ascom para divulgar as ações da universidade. Na programação, os ouvintes têm acesso a entrevistas, boletins e flashes informativos com detalhes sobre eventos, pesquisas e ações acadêmicas, e muita música. Os ouvintes ainda podem participar da programação enviando áudios, sugerindo músicas e entrevistas, pelo email comunicacao@ascom.ufal.br .

Fizeram parte da programação da Rádio Bienal, o registro (gravado e ao vivo) de várias sessões de autógrafos e bate-papo com autores alagoanos e de outras partes do Brasil, como o poeta Jessier Quirino, a escritora de ficção juvenil Pepper, o romancista Ricardo Lísias, o cordelista Bráulio Bessa, a filósofa Márcia Tiburi e o ator, humorista, roteirista e escritor carioca Gregório Duvivier.

“Nos dias e horários que não pude ir à bienal, ficava trabalhando e ouvindo o que estava acontecendo através da rádio web. Várias palestras que não pude comparecer, depois ouvia a entrevista com os autores e conferencistas. Foi uma inovação muito importante daquela bienal”, lembra Cecília Arruda, que, em 2017, cursava Literatura na Ufal e hoje é declara uma das maiores fãs das bienais. “Enquanto professora, leitora e mãe, nem consigo imaginar Alagoas sem bienal do livro. É impossível mensurar o impacto e as transformações de vida que o evento causa em crianças, adolescentes e adultos”.

Além da Rádio Bienal, professores e estudantes da própria Ufal foram responsáveis pelo projeto de ambientação construído no Centro de Cultural e de Exposições Ruth Cardoso, conhecido como Centro de Convenções, no bairro de Jaraguá. O desafio proposto foi, a partir do Bicentenário da Emancipação Política de Alagoas, criar ambientes surpreendentes e fluídos para a mobilidade confortável para 25 mil visitantes por dia.

A resposta veio do Grupo de Extensão Luminaturas, que integra o Programa Proinart/Ufal, representado pelos arquitetos Eduardo Quintella e Ivvy Quintella. O projeto foi conectado com o tema e slogan do evento, utilizou as vivas cores da bandeira de Alagoas e também foi inspirado no rico acervo cultural do Estado. Participam do grupo nove alunos das graduações em engenharias, arquitetura e design.

Um dos grandes destaques foi um grande painel iluminado representando um chapéu de guerreiro ao fundo. Nessa praça de acolhimento, localizada na área principal do Centro de Convenções, o público se aglomerou diariamente para conseguir fotos e registrar sua ida ao local.

Porém, nem todos imaginam o trabalho por trás, não só desta arte, como também de outras intervenções em vários ambientes distribuídos no espaço do Centro de Convenções.

Foram três meses de reuniões, idealização, projeto arquitetônico, modelagem 3D, fotomontagens, Impressão 3D dos elementos componentes, verificação dos detalhes da parte estrutural, dentre outros pontos.

Tudo isso baseado no tema do evento “Livros que envolvem, leituras que libertam”, além do bicentenário da emancipação política de Alagoas, trazendo imagens que representassem fortemente a cultura e a identidade alagoanas.

A decoração contou com instalações que aproveitam a luz do sol, grandes fitas aéreas nas cores características do evento, paginação das cores e desenho do carpete até o final da área principal, diversos móbiles de acrílico cortados à laser na entrada principal, na fonte e nos stands da Edufal e Ascom, origamis, texturização de portais com fitas, além dos já famosos chapéu de guerreiro e letras em tamanho grande formando o nome do evento.

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a bienal que se espalhou pelos centenários predios de Jaraguá

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Roberto Amorim

Depois de 21 anos, a IX Bienal Internacional do Livro de Alagoas quebra o protocolo. O maior evento literário do estado se liberta dos espaços fechados das edições anteriores e ocupa diversos prédios centenários da histórica rua Sá e Albuquerque, em Jaraguá.

O bairro teve papel crucial no desenvolvimento de Maceió, atuando como ponto de partida para a transformação da vila em capital da província de Alagoas. O crescimento de Jaraguá, impulsionado pelo seu porto, atraiu comércio e atividades econômicas, levando ao aumento da população e, consequentemente, à mudança da capital de Alagoas para Maceió.

“A IX edição nos chama a mergulha na história de Alagoas, nos prédios históricos de Maceió, unindo história cultura e arte no belo e tradicional bairro de Jaraguá”, afirmou a então reitora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Valéria Correia, na noite de 1º de novembro de 2019, em seu discurso de abertura proferido nas escadarias do elegante prédio da Associação Comercial de Maceió.

Enfática, ela ressaltou que a bienal homenageava o país africano Moçambique, às vítimas da ditadura militar; e as mulheres “que fazem a história deste estado a partir de suas lutas por melhores condições de vida e do trabalho, no campo e na cidade. Estas homenagens imprimem sentidos especiais a 9ª edição da Bienal Internacional do Livro de Alagoas”.

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O tema escolhido para nortear os 10 dias de programação foi “Livro Aberto: Leitura, Liberdade e Autonomia”. A diretora da Edufal, Elvira Barreto evidenciou que a ideia da bienal gira em torno da história de Alagoas, que precisa, cada vez mais, ser contada em um livro aberto. “Será em formato inovador, marcando a maioridade desse grande evento no coração da história da capital alagoana”.

Após as falas de abertura, as apresentações artísticas que se seguiram deram o tom de como seria diferenciada e mágica a IX Bienal Internacional do Livro de Alagoas. O público diante do majestoso prédio da Associação Comercial de Maceió ficou encantado com o surgimento de uma medusa fazendo malabarismo com fogo, a emburrada beata Dorotéia andando apressada e personagens da literatura infantil como Peter Pan, a Bela, a Fera e Sininho correndo, animados, pelas históricas escadarias.

“Eu nunca tinha visto nada igual em Maceió. Foi o casamento perfeito entre literatura, arquitetura e o povo redescobrindo a potencialidade de Jaraguá, que, infelizmente, voltou a ficar abandonado. Em 2019, a bienal mostrou que a força do poder público pode mudar a realidade de um espaço e o devolver a sociedade como equipamento de lazer e cultura”, disse a enfermeira Dolores Andrade, enquanto mostra uma série de fotografias realizadas durantes os vários dias que participou das atividades propostas ela bienal.

Circuito secular

Não existe a menor dúvida que a IX Bienal Internacional do Livro conseguiu aproveitar cada pedaço de chão e paredes da rua Sá e Albuquerque, numa clara referência a eventos literários como a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), um evento literário de grande porte realizado anualmente em Paraty, Rio de Janeiro.

Assim como a FLIP, a bienal de Alagoas em Jaraguá aconteceu em um contexto histórico e arquitetônico único, com casarões e rua de pedra, o que conferiu um charme especial ao evento, realizado durante os dez primeiros dias do mês de novembro de 2019.

Quatorze espaços formaram um circuito de feira de livros (lançamentos e sessão de autógrafos), oficinas diversas, palestras, rodas de conversas, espetáculos de música, dança, teatro e muitas outras expressões artísticas contemporâneas. Era comum, também, encontrar personagens da literatura infantil, como princesas, fadas e o temido Capitão Gancho interagindo com crianças, jovens e adultos durante o deslocamento entre um prédio e outro.

O grande Espaço Armazém, cravado no centro da rua Sá e Albuquerque foi o coração da bienal, onde foram montados dezenas de stands de editoras e livrarias de todo Brasil, além de espaço temáticos específicos para atividades literárias e artísticas.

O Palácio do Comércio (século 19), onde funciona a associação comercial da cidade, disponibilizou a grandeza do seu espaço para as atividades acadêmicas, artísticas e culturais de instituições como a Academia Alagoana de Letras, a Fundação Palmares e a Pinacoteca Universitária, além de abrigar o gabinete da Reitoria da Ufal, que funcionou no histórico prédio durante os 10 dias da bienal.

O antigo armazém de açúcar onde funciona o Arquivo Público de Alagoas abrigou discussões e lançamento de obras acadêmicas científicas e contação de histórias. O prédio do IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) abriu suas portas para visitação ao impressionante acervo da instituição, além de acolher a extensa programação do Sesc e a uma exposição da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Ufal).

O Museu da Imagem e do Som de Alagoas (Misa) ofertou suas coleções para visitação durante o horário da bienal, além do salão principal ter sido palco de lançamentos de livros e palestras sobre a produção do audiovisual em Alagoas. Destaque também para a Igreja Nossa Senhora Mãe do Povo, onde aconteceram apresentações de orquestras, corais e cameratas. Na praça em frente, a Dois Leões, foi montado palco para shows musicais, feita de artesanato, espaço de convivência e praça de alimentação.

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A circulação ainda inclui outros espaços abertos como a Praça Os 18 de Copacabana, com a sua réplica da Estátua da Liberdade; o Beco da Rapariga e o extenso estacionamento da prefeitura de Maceió, onde foi montado o Pavilhão das Oficinas.

Ontem, hoje e amanhã

“Era uma loucura muito boa. A gente não sabia para onde ir diante de tantos espaços e programação maravilhosa. Eu e minha turma de amigos fomos todos os dias dessa bienal para aproveitar tantas atrações em lugares diferentes “, lembra Josué dos Santos Silva, que na época cursava o ensino médio.

A inseparável amiga dele, Vera Lúcia, conta do impacto das descobertas arquitetônicas dos prédios históricos do bairro de Jaraguá que se transformam em palco da primeira e única bienal realizada em diversos espaços simultaneamente.

“Às vezes passava por Jaraguá, mas nunca tinha parado para ver a beleza da nossa história. Depois da bienal voltei lá muitas vezes para conhecer mais de perto onde Maceió começou a ser construída. Essa bienal mudou a minha percepção da cidade”, diz a agora estudante do curso de História da Ufal. “Talvez essa experiência tenha influenciado pela escolha da profissão que quero seguir.

A dupla de amigos não exagerou. Foram mais de 100 atrações de gente talentosa de Alagoas e do Brasil, em diversas áreas do conhecimento científico, literário, artístico e filosófico, como a Monja Coen. Jaraguá também recebeu o ator Erom Cordeiro, com consistente carreira em novelas e filmes; os jornalistas Gustavo Lacombe e Manuela D’avila; as escritoras Jarid Arraes e Amara Moira; e o vencedor do prêmio Jabuti José Roberto Torero.

As atrações alagoanas foram selecionadas através de Chamada Pública e contou com a participação de pesquisadoras, atrizes e atores, escritores e escritoras como Edilma Acioli Bonfim, Enaura Quixabeira, Benedito Ramos, Alberto Rostand Lanverly, atual presidente da Academia Alagoana de Letras (AAL). Isvânia Marques, Maria do Socorro Lamenha debateram sobre diversos temas, como a relação entre literatura e pintura, além do bate-papo do diretor, professor e ator Otávio Cabral com o ator alagoano Erom Cordeiro.

A IX Bienal Internacional do Livro de Alagoas também será lembrada pelo esforço da organização para minimizar os efeitos poluentes através de atitudes simples e eficazes. As sacolas plásticas foram trocadas por sacolas de papel e eco bags. Nas praças de alimentação pratos, copos, canudos e embalagens só de papel. Os crachás, cartões e selos foram confeccionados com papel semente. E tem mais. A mobília das praças de alimentação teve como base pallets e pinos que foram reutilizados nos campi da Ufal.

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2023

a bienal que venceu a pandemia e bateu todos os recordes

2023

Roberto Amorim

Em 2020, a pandemia da covid-19 deixou um rastro de destruição de cerca de milhões de vidas perdidas pelo vírus; além da devastação de empresas e empregos. Saúde e cultura ainda trabalham para recuperação das sequelas.

Mas a pandemia também reforçou a fé e o trabalho árduo para transformar dor em esperança. É neste contexto que, em agosto de 2023, ressurge a edição de número 10 da Bienal Internacional do Livro de Alagoas. Estava prevista para 2021, mas a sequência de dois anos foi quebrada até sair o consentimento das autoridades sanitárias para a realização de eventos com milhares de participantes.

A simbiose entre a bienal e o público retornou ainda mais forte. Foram mais de 412 mil visitantes durante os 10 dias de robusta programação no Centro Cultural e de Exposições de Maceió, em Jaraguá.

Todos os números bateram recordes: lançamentos de 500 novos livros, 25 oficinas com temáticas das mais variadas, 85 atividades como mesas-redondas e palestras. O agendamento para visitas guiadas esgotou logo nos primeiros dias e mais de 41 mil estudantes de escolas públicas e privadas povoaram os corredores da edição 2023 da bienal alagoana do Livro.

Na lista da programação acadêmica foram realizando eventos de programação consistente a grande alcance, como o Seminário de Educação, os 90 anos da Faculdade de Direito de Alagoas (FDA) e os 50 anos do curso de Serviço Social.

Livrarias e editoras celebraram o retorno da bienal em chão alagoano. Juntas, contabilizaram mais dos 250 mil livros vendidos, chegando à receita de mais de R$ 6 milhões comercializado em apenas 10 dias. Para esquentar o setor, 11.560 estudantes da rede municipal de ensino de Maceió tiveram incentivo R$ 20 para investir em livros. Três mil professores receberam R$ 80, totalizando a circulação de quase meio milhão de reais.

“Todas as edições foram um sucesso, uma foi superando a outra em torno de números, de expectativas, de potencial de evento… Acho que valeu a pena acreditar em um sonho e persegui-lo desde 2005 quando fizemos uma bienal com 50 mil pessoas. Estou muito feliz, muito feliz mesmo, com o resultado que a gente conseguiu”, comemorou Sheila Maluf, que doze anos de depois voltou a curadoria da Bienal de Alagoas.

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Falas e fotos

Ainda sob a influência da luta contra a covid-19, o tema da bienal de 2023 foi “Defender a vida, proteger o planeta e humanizar a sociedade”. O patrono foi o cineasta Cacá Diegues (1940 – 2025) e o país homenageado a Argentina.

“Tivemos o privilégio de ter o Cacá Diegues como patrono. Aquele que fez “Xica da Silva”, “Deus É Brasileiro” e tantos outros filmes. Aquele que é Membro da Cinemateca Francesa de onde tem, inclusive, Ordem do Mérito Cultural, e é um estimulador da leitura, das artes visuais, do cinema e um alagoano que esbanja criatividade e sempre enaltece a sua terra”, ressaltou o reitor Josealdo Tonholo.

De 11 a 20 de agosto passaram por Maceió escritores e intelectuais renomados, como o filósofo e líder indígena Ailton Krenak, o escritor Itamar Vieira Junior, autor dos romances “Torto Arado” e “Salvar o Fogo,” e o antropólogo Kabengele Munanga. Também participaram do evento a escritora Paula Pimenta, o cartunista Carlos Ruas e Carla Akotirene, reconhecida pesquisadora sobre o tema da interseccionalidade.

A ambientação da X Bienal Internacional do Livro de Alagoas, assinada pela arquiteta Mirna Porto, teve destaque especial com vários espaços instagramáveis.

Logo na entrada o público se deparou com grandes painéis em reconhecimento a 24 grandes autoras e autores alagoanos que deixaram legados incontestáveis, como Linda Mascarenhas, Dirceu Lindoso, Sávio de Almeida e Heliônia Ceres, inclusive com audiodescrição, em uma parceria com a Agência Tatu.

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Destaque para “Terra, a Grande Maloca”, revestida com dois mil exemplares da “Revista Graciliano”, uma árvore de cordel, painéis e totens. Havia também um vídeo 360º da Imprensa Oficial e o próprio projeto arquitetônico moderno do local, com corredores amplos e ambientes interativos, que atraíram o público para fotos e ponto de encontro.

“Eu quis fazer um espaço amplo, para as pessoas circularem à vontade, mas que, ao mesmo tempo, tivesse elementos que fossem destaque”, explicou Mirna, também responsável pelo projeto arquitetônico da XI Bienal Internacional do Livro de Alagoas, marcada para acontecer entre os dias 30 de outubro e 09 de novembro de 2025.

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