Entrevista: "A Bienal do Livro é um compromisso da Ufal com o povo alagoano"

Roberto Amorim

Professor Eraldo Ferraz

Depois de 22 anos, o professor Eraldo Ferraz volta ao comando da Editora da Universidade Federal de Alagoas. De 1999 a 2011, ele realizou quatro edições do Salão do Livro e da Arte e uma Expolivro em diversos espaços da cidade.

Agora, o desafio é a XI Bienal Internacional do Livro de Alagoas centrada num diálogo cultural e ritualístico entre o Brasil e os países africanos de língua portuguesa: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe. O maior e mais importante evento literário em chão alagoano acontece de 31 de outubro a 9 de novembro no Centro Cultural e de Exposições de Maceió, cravado no histórico bairro de Jaraguá.

Mais experiente, e não menos inquieto e proativo, Eraldo, em entrevista à Revista Saber Ufal, comemora a venda de todos os stands, reflete sobre a importância e expansão da bienal desde a década de 90 e reforça a ousadia da Edufal em ser a única editora universitária pública responsável com coragem para realizar bienais há 27 anos. "Nossa intenção não é o lucro, mas democratizar o acesso aos livros e incentivar a leitura, principalmente entre as crianças e adolescentes".

Quais as motivações que o levaram a assumir a direção da Editora da Universidade Federal de Alagoas (Edufal) em 1999?

A diretora anterior tinha deixado a função e há quatro meses a editora estava fechada. Eu trabalhava na coordenação da antiga Pró-reitoria de Planejamento (Propan), hoje pró-reitoria de Gestão Institucional (Proginst). De repente, o reitor Rogério Pinheiro me chamou no gabinete e disse que tinha uma missão para mim: assumir a direção da Edufal. Fiquei em choque, pois nunca tinha escrito um livro, e achava que precisava ser escritor para assumir o cargo. Mas ele esclareceu que minha missão seria de gestor, administrar a Edufal para ela se tornar atuante e referência no segmento das editoras universitárias. Movido a desafios e um pouco de loucura, aceitei a missão.

Qual foi o primeiro desafio ao pisar na Edufal?

Ao chegar como diretor me deparo com a responsabilidade de publicar, em três dias, uma nova edição do clássico “Canais e Lagoas”, de Octávio Brandão (1896 – 1980), lançado no início do século 20. A obra iria representar Alagoas na Coleção Nordestina, que reunia clássicos das editoras universitárias do Nordeste e seria lançada na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. O livro já tinha sido escolhido pela direção anterior e não tinha como voltar atrás.

A capa era produzida pela Universidade Federal de Paraíba e a plastificação fosca não existia em Maceió, tinha que ser feita em Recife. O disquete com a formatação do livro chegou pelo ônibus que vinha da Paraíba e fui pegar na rodoviária, entregar ao diagramador e escolher a foto da capa.

Depois corri para Recife para impressão em papel fosco e montar o livro. E já no aeroporto esperando os 20 exemplares para embarcarem para o Rio de Janeiro, onde o livro foi lançado com sucesso, devido à universalidade das pesquisas de Octávio Brandão sobre a relação do homem com o meio ambiente. Depois desse primeiro desafio cumprido, percebi que estava pronto para continuar na missão dada pelo reitor.

Por que não realizar uma segunda edição da bienal, mas realizar, a cada ano, uma edição do Salão do Livro de Arte de Alagoas em espaços diferentes?

Para não perder o entusiasmo do público com a realização da primeira bienal, em 1988, decidi que iria oferecer o mesmo formato do evento, só que agora todos os anos. Daí surgiu o Salão do Livro e da Arte de Alagoas. Uma combinação de feira de livros, exposição de artes e enorme diversidade de manifestações culturais, como shows, oficinas artísticas, lançamentos, sessão de autógrafos e bate-papo com os autores.

A primeira edição foi na praça Multieventos, na praia da Pajuçara. Um sucesso de público, com intensa visitação dos alagoanos e turistas. Depois realizamos na Fundação Pierre Chalita, Associação Comercial de Maceió, Expoagro e Armazém Uzina, na histórica rua Sá e Albuquerque, no Jaraguá.

Qual o legado deixado por essa maratona de salões?

Na época, em Alagoas, existiam um ou duas livrarias, como a Caetés. Era preciso encomendar a maioria dos livros ou viajar para comprar nas livrarias de Recife, Salvador ou São Paulo. Então, era muito tempo esperar dois anos para ter acesso às principais livrarias e editoras do país.

A realização do Salão, a cada ano, alterou positivamente essa relação do leitor com as editoras, com os lançamentos mais atuais. Além da proximidade do grande público com os artistas e cantores da terra. Tudo isso disponível gratuitamente. E o interessante é que não tínhamos dinheiro para pagar cachê, apenas oferecíamos logística, transporte e alimentação. Todos se envolviam pela importância do evento para Alagoas. Só um ano que tivemos, através da Lei Rouanet, um valor de R$ 50 mil intermediado pela secretaria estadual de Educação.

A Bienal Internacional do Livro de Alagoas é a única do Brasil organizada por uma editora universitária pública. O que isso representa, na prática?

Todas as outras bienais do livro no país são negócios de empresas privadas que visam, antes de tudo, o lucro. Se as vendas não garantir o lucro, não existiria bienal do Rio, São Paulo... O metro quadrado do chão é altíssimo e a organização não se responsabiliza pela montagem de balcão, das prateleiras. E o público ainda paga ingresso para entrar.

Na bienal de Alagoas, que é pública, o acesso é gratuito e os preços dos estandes são justos. Nossa intenção não é o lucro, mas democratizar o acesso aos livros e incentivar a leitura, principalmente entre as crianças e adolescentes. Sem o investimento do governo do Estado de Alagoas e outros parceiros, a nossa bienal não existiria, pois sua essência é educativa, e não comercial. E tem mais, as dezenas de atrações acadêmicas e culturais durante a bienal também são gratuitas. É uma bienal pública com foco na contribuição para a formação do cidadão crítico através da leitura. A Bienal do Livro é um compromisso da UFAL com o povo alagoano.

E o apoio da Reitoria?

O que admiro é que muda a gestão e nenhum reitor ou reitora cogitou abandonar a Edufal e a Bienal Internacional do Livro de Alagoas. Já faz parte da política institucional da Ufal. De 1999, quando assumi a Edufal pela primeira vez, até 2025 o avanço foi admirável graças ao empenho e ótimo trabalho dos diretores e magníficos reitores que fizeram parte dessa trajetória de sucesso.

Nos relatos das reuniões da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (Abeu) percebo que outras editoras sofrem com o abandono da gestão em relação a suas editoras. Muitas quase nem conseguem publicar livros. Por isso, é tão importante escolher bons gestores nas eleições para reitor, principalmente os que apoiam os livros. Apesar do desafio financeiro, aqui em Alagoas nenhuma gestão cogitou fechar a Edufal e deixar de realizar a bienal. Nesse sentido, é preciso ressaltar, mais uma vez, o papel decisivo dos investimentos do governo do Estado de Alagoas e outros órgãos e parceiros que querem atrelar suas marcas à bienal.

A Edufal tem uma equipe pequena, como consegue dar conta de uma bienal?

A cabeça pensante de cinco salões do livro e 11 bienais é a Edufal. É o lugar onde tudo é gestado, mesmo com uma equipe mínima. Nem eu compreendo como isso é possível. Só pode ser pelo amor aos livros, à leitura. Hoje temos três funcionários efetivos, alguns estagiários e dois terceirizados. Durante a bienal contamos com a competência indispensável da Coordenação de Assuntos Culturais (CAC). É um setor da Proex que articula diferentes projetos e programas artístico-culturais no âmbito da Ufal. Os produtores culturais são responsáveis pela intensa (manhã, tarde e noite) e diversificada programação artístico-cultural da bienal. Não é tarefa fácil, são dez dias de intensas atividades. A CAC está trabalhando com muito empenho, responsabilidade e compromisso.

Outra característica que vem se fortalecendo nas bienais de Alagoas é a programação acadêmica, como as atividades realizadas pelo Centro de Educação (CEDU/Ufal).

O Cedu sempre teve uma programação muito consistente, inclusive trazendo personalidades da área da educação de projeção nacional e internacional. A ideia surgiu do professor Luis Paulo Mercado, que me lançou o desafio, já que estava envolvido em diversos outros projetos e não teria tempo. Viabilizei a parceria com a Editora Cortez, que assume as despesas de renomados pesquisadores que lançam livros durante a bienal e ainda fazem palestras abertas para estudantes, professores e pedagogos. Esse ano, como estou na direção da Edufal, a missão ficou com as professoras Sandra Regina e Silvana Paulina.

Os cursos de História e Serviço Social seguem o mesmo caminho e realizam seminários dentro da programação da bienal. Também são realizados encontros, congressos, simpósios e rodas de conversas realizadas por vários setores da própria Ufal e também de outras instituições da sociedade civil. Abrimos até edital para a participação do público externo.

Qual é a percepção das outras editoras públicas diante da coragem da Edufal de, há 27 anos, realizar bienais gratuitas?

Os outros gestores não entendem, não acreditam como seguimos manter esse compromisso de organizar uma bienal que cresce a cada edição em visitantes, editoras, livrarias e extensa programação cultural e científica. Ficam impactados. Inclusive oferecemos, gratuitamente, um stand para as editoras universitárias do Nordeste, com balcão e prateleiras prontas. Nas bienais de outros estados, a ABEU precisa pagar para participar, que pode chegar até dois mil reais com estrutura mínima. Se quiser mais espaço e estrutura, o valor vai para R$ 8 mil.

Eraldo Ferraz na Bienal do Livro de Alagoas

A pandemia da covid-19 afetou o público da Bienal?

A Bienal de 2021 foi logo após a pandemia. Estávamos com muitas dúvidas por conta do aumento das compras online, dos e-books e o receio da aglomeração em lugares fechados. Mas, o público estava com saudade dos livros, das palestras, das atividades culturais e artísticas. Foi um grande sucesso. Tanto é que não tivemos dificuldades para comercializar os stands da 11ª edição deste ano. Estamos em julho e não temos mais nenhum estande disponível e ainda gente procurando para participar.

Esse movimento não é só em Alagoas, as bienais do Rio e São Paulo bateram recordes de público e vendas. Na Bahia, por exemplo, vários dias tiveram que fechar os portões porque não cabia mais ninguém. É importante ressaltar que nessas capitais é preciso comprar ingresso. Isso prova que as pessoas ainda estão acreditando no livro físico. A Bienal deixou de ser só um lugar de comprar livro e passou a ser um espaço de convivência, de ir com toda a família, de aproveitar a diversidade da programação.

Foram cinco salões do livro e duas bienais à frente da Edufal, como lida com as críticas?

Estou acostumado a enfrentar desafios profissionais. Sou a pessoa mais tranquila para receber as críticas, porque aprendo com as construtivas e as que não contribuem em nada desconsidero. Faço de conta que não ouvi. Mas quando é construtiva e ainda for possível ajustar, corremos para corrigir e entregar o melhor.

Então, nada lhe tira o sono na bienal deste ano?

Em relação a organização durmo tranquilamente, pois confio na competência de toda a equipe envolvida. A minha preocupação é com a fluidez da imensidão da programação que estamos oferecendo. Do tamanho do espaço para acolher bem todos os convidados e visitantes, principalmente os milhares de estudantes já confirmados. Tem também a questão de limpeza, segurança e acolhimento dos livreiros e editoras. É minha única apreensão.

É por isso que sempre elogio os meus antecessores e antecessoras, porque sei a responsabilidade e o compromisso do que é organizar uma Bienal. Não é possível fazer comparações, cada bienal tem suas especificidades e cada gestor fez o melhor naquele momento específico. A bienal é sempre um momento fantástico.

Por que a África como tema da 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas?

Escolhemos nos aproximar mais dos países africanos de língua portuguesa. Em conversa com o professor Bijagó, da Guiné-Bissau e docente do Campus Arapiraca, chegamos ao tema “Brasil e África: ligados culturalmente em suas raízes e ritos”. Este tema visa celebrar a profunda conexão cultural entre o Brasil e o continente africano, com foco nas raízes históricas e nas diversas expressões culturais que unem os dois lados.

Nesse sentido, Mãe Neide Oyá D’Oxum será a patronesse, Mãe Mirian a madrinha, e Pai Célio o padrinho. Eles foram escolhidos por suas contribuições para a cultura afro-alagoana e por serem referências na valorização das religiões de matriz africana e das tradições culturais do estado. Para além dos homenageados, toda a programação da bienal de 2025 está norteada pelas vivências e trocas culturais entre Brasil e África, com a presença de vários pesquisadores africanos que estão realizando pós-doutorado aqui no Brasil.

Qual o maior trunfo da bienal de 2025?

Qual o maior trunfo da bienal de 2025? A participação massiva dos alagoanos. A gente espera que as pessoas acreditem nesse trabalho e realmente aproveitem tudo que foi preparado com muito zelo, com muito cuidado. E tudo gratuitamente. Eu espero engajamento, envolvimento de toda sociedade: crianças, adolescentes, adultos e idosos. É uma bienal de inclusão e imersão. Mas todo esse trabalho é pensado e feito para a população. Nesse sentido contamos com muitos parceiros, como a iniciativa do vale-livro para alunos e professores do ensino fundamental e médio. Espero que abracem o nosso evento, curtam, aproveitem as oportunidades. A bienal não é para constar no currículo da Edufal, é para o povo. Nós fazemos apenas a gestão, mas os protagonistas são os livros e os leitores.

Divisor